28/02/08

O Triunfo dos Porcos

George Orwell sempre manifestou uma consciência política e uma visão muito fora do comum. Se no livro 1984, apresenta um mundo governado por ditaduras que chamaria alucinantes, uma ideia que já esteve mais afastada do nosso mundinho rectangular, em O Triunfo dos Porcos (Animal Farm) cria uma fábula mordaz de alcance incrível, com uma sociedade de animais, uma quinta, uma revolução..., grandes ideias..., às quais se seguem grandes mobilizações e consequentes acções.
E depois, depois chegam os políticos para moldarem o produto da revolução a seu bel-prazer, para acabar por fazer regressar tudo ao aspecto original. O poder, quando deixado para um grupo restrito, acabará sempre por cair no mesmo vazio. Será então verdade, a ideia central que não faz qualquer sentido participar em algo para mudar. No final ou se torna num dos seres que acabou de derrubar ou se acaba por cair na situação que se verificava anteriormente (Alguma coisa mudou para tudo ficar na mesma - Giuseppe Tomasi, in Il Gattopardo). Um livro verdadeiramente universal, aplicável a qualquer regime totalitarista...
Uma tirada que sintetiza esta fábula política: o idealismo traído pelo sabor do poder.
Transcrição da parte final:
«Não havia agora dúvidas sobre o que estava a acontecer às caras dos porcos. Os animais que estavam lá fora olhavam dos porcos para os homens, dos homens para os porcos e novamente dos porcos para os homens; mas já não era possível dizer quem era quem

Festa do Livro em Aveiro

"É a primeira Festa do Livro, uma iniciativa da Câmara de Aveiro e da distribuidora "Calendário das Letras", e está a decorrer numa tenda montada no Largo do Rossio até ao próximo dia 16 de Março. São 60 mil livros, desde infantis, juvenis, romances, técnicos, poesia e história, entre outros, com preços a variar entre um e mais de 10 euros, que podem ser adquiridos, todos os dias, entre as 11 e as 20 horas. Tratam-se de livros lançados no mercado há mais de 18 meses e que hoje raramente se encontram nas livrarias, já que as festas do Livro são dirigidas aos fundos editoriais mais antigos60 mil livros com preços a partir de um euro ao dispor dos visitantes." - Fonte J.N.

25/02/08

Na Sábado - António Pires de Lima

«...
- Quer dizer que José Sócrates é um déspota?
- Sem dúvida, é um ditador. Este homem só não tem a inteligência de António de Oliveira de Salazar. Sócrates é caprichoso, é malcriado, por vezes ordinário. Faz o que entende... Atrás dele tem o carneirismo de topo, habitual na política e nos políticos.
- Em poucas palavras, qual a sua opinião relativamente a José Sócrates?
- É um indivíduo inteligente, que raciocina, mas para mim é um ditador em formação.
...»
n.º 199 - 21 a 27 de Fevereiro de 2008

10/02/08

Ávila - Espanha

Muitos autarcas deviam pôr os olhos nesta histórica cidade espanhola e tirar daí algumas ilações:
- perímetro da urbe antiga perfeitamente delimitado, para além de ter sido objecto de beneficiação;
- construção em altura dentro do perímetro, limitada ao número de pisos pré-existentes;
- os edifícios preservam a traça de origem. Os novos edifícios mantêm as fachadas e o seu interior é reconstruído. Não há lugar a experiências arquitectónicas.
- núcleo histórico potenciado pelo grande número de vias pedonais. As vias rodoviárias diminuíram em número e as sobrantes mantêm a sua geometria original.
- grandes superfícies, que eu tivesse visto, nem uma. O que vi foram coisas do tipo "Plus" implantadas na periferia;
O resultado está à vista. Aplicando a frase feita: é só ir aqui ao lado, a cerca de 300km, direcção -Madrid.

08/02/08

100 mil livros à venda na feira do livro no Mercado Ferreira Borges

Saldos até 24 de Fevereiro na feira do livro do Mercado Ferreira Borges no Porto, com descontos que variam entre os 30 e os 80% em livros descatalogados e edições recentes que já não têm lugar nos escaparates. Mais uma feira com o formato das 10 (ou 12) últimas que o antigo mercado tem recebido. Um segurança à porta, bancadas espalhadas pelo pavilhão carregadas de livros, muitas delas com promoções a 5€ cada 10 unidades que já não interessam nem aos que compram para compor as prateleiras lá de casa. Cartazes ao alto a separar por preço, num espaço cinzento, não aquecido e muito ventilado, nada propício a quem pretender fazer a breve leitura decisiva para a aquisição de uma obra. Aconselha-se um agasalho como um cachecol e uma protecção para as orelhas.

07/02/08

A Arte de Ser Português - Teixeira de Pascoaes

Era uma vez um Portugal com portugueses que Teixeira de Pascoaes viu, e no-lo mostrou pelo texto deste livro tal qual ele o observou, fundado na glória da sua história, reflectido pelas suas figuras maiores, pelos seus poetas, nas virtudes de ser português e nos seus defeitos, sintetizando que para sermos o Português que vira nesse projecto, era preciso arte.
Arte para nele se reconhecer a nossa raça, símbolo de uma pátria independente e distinta, cristalizada pelo nosso pulsar e pela nossa língua. Arte para mostrar o nosso carácter, fruto de uma herança e tradição que dos remotos povos ibéricos emergiu e se destacou desses demais, de onde nasceu uma pátria lusíada independente e criadora em vários domínios: direito, arte, literatura e ciências.
Na arte de ser português o escritor reproduz o nosso ser, faz o esboço do perfil do nosso carácter, descreve e sublinha os nossos traços mais importantes, aqueles que nos distinguem dos outros povos, e não o faz percorrendo somente as fronteiras do nosso território, conseguidas aos castelhanos e aos árabes por heróicos feitos. Fá-lo na medida de um grande português, sem artifícios e sem demagogias, com uma vontade e convicção naturais, enxugando a pena do poeta com a ânsia de passar para o lado de cá da barricada. Pascoaes destapou a nossa alma para que quem se dispuser a vê-la, possa (re)aprender a importância da nossa obra enquanto Portugueses, sobretudo a nossa expressão verbal que traduz em sons o que somos e o que sentimos, verbaliza o que nos vai no mais íntimo da raça e que noutras línguas não se consegue traduzir. Em particular, vem-me à lembrança a dita palavra da língua portuguesa: a Saudade, tão típica da sua alma e que dela faz parte, dividida pelo desejo e pela esperança.
Assim se revela a referida Alma Pátria, pelo cancioneiro popular, pelo lirismo de Camões imortalizado pelos Lusíadas, atravessando séculos até Garret e Herculano. Uma nação como a nossa não esgota a sua história, nem a sua alma se extingue na idade que marcou a sua juventude, aurora dum passado que nos é basilar e que demarcou o nosso espaço físico.
A sua génese identifica-se nos primórdios da península. Desde então as qualidades e virtudes foram despontando, e o expoente que classificou o génio lusíada estava ainda para surgir e atingir a sua máxima expressão científica, militar, religiosa, etc… na época dos descobrimentos ! Época renascentista louvada pelos Lusíadas de Camões, pelas obras do empreendimento exclusivo da nossa ciência e da arte da navegação posta em prática pelo espírito português, e pela audácia dos nossos marinheiros. Culminando em Alcácer Quibir e em D. Sebastião…
O autor, no desenvolvimento do seu raciocínio sobre a Alma Pátria, encaminha-nos para as suas noções de indivíduo e de pátria, de vida animal e vida superior, de perfeição e imperfeição, faz-nos reflectir sobre a lei suprema e as implicações da subjugação do indivíduo à pátria, ficando este também a ser pátria ascendendo em sacrifício ao espiritual. Esse sacrifício não se confinará ao colectivo de um campo de batalha. O amor familiar, o seu contributo como homem fraterno entre seus pares na comunidade e na profissão, cumprem os desígnios da lei suprema.
Tomamos o pulso a um conjunto de matérias que são abrangidas pelo poeta, com reflexões em campos como a história, filosofia, arte, paisagismo, religião, política e jurisprudência.
Pascoaes reconhece alicerces para a estrutura familiar, nas tradições do passado da humanidade, na vida municipal em obrigações comunitárias hierárquicas, nos 3 estados propostos de família rural, urbana e operária, e colhendo as virtudes dos antepassados estabelece uma analogia entre a família e a pátria, devendo constituir ela própria uma pequena pátria, ocupando um território familiar, criando assim ela também a sua própria raça. Ao Português tal culto é proposto para a manutenção da sua civilidade e disciplina.
Porém, nesse culto está implícita uma dose de religiosidade que moralmente ampara o indivíduo na sua ligação ao divino etéreo, e será o garante do cumprimento da lei suprema do sacrifício. Pascoaes até nesta vertente inova e recebe apoios, separando a velha igreja romana para criar uma nova à imagem da renascença portuguesa: a igreja Lusitana.
Surge então o cristianismo que é tradicional na concepção religiosa da família portuguesa e que como é sabido, é uma herança de longínqua proveniência desde a fundação da pátria por D. Afonso Henriques, tendo-se enraizado na nossa história pela criação de um lugar cativo da imagem de Jesus Cristo e da Sagrada família, tanto nos nossos templos e palácios, como nas nossas casas, sendo a «lareira o santuário com as imagens dos avós».
Aliás, algumas décadas depois de sair este livro, uma das páginas da nossa história mais recente o mostra, pela concepção que o estado novo tinha sobre a vida familiar e em sociedade, para os portugueses. Vida essa de princípios rurais e agrários, ligada à igreja católica, ideia com pouco arrojo, muito comedida, algo cinzenta e sem grandes apostas na inovação, pensando-se sempre na condição de neutralidade perante a guerra. Na altura, Franco, aqui ao lado, dizia exactamente isso de Salazar, e no entanto… E assim nos íamos mantendo como os meninos bem comportados da família europeia, com os mesmos brandos costumes, muito honestos aos olhos dos outros, mas pobres! Pobres em infra-estruturas e na cultura, que a felicidade ignorante fez o favor de estagnar. E os que despertavam desse estado letárgico, logo eram amordaçados… Bom, mas vamos deixar o estado novo e voltar a Pascoaes.
Encontro talvez a única discordância que me separa deste pensamento, na questão da religiosidade bucólica a braços com a ruralidade comungando com a natureza, inúmeras vezes referida, onde à qual dedica um sub-capítulo sob o título de paisagem. A visão populista nas constantes chamadas ao folclore nacional do cancioneiro popular, denota um olhar que não se vira para a modernidade, num período em que o país sofre mudanças políticas e sociais profundas com a instauração da República.
Mas mesmo assim, como compreendo Pascoaes por este resgatar o que considerava o mais representativo e glorioso do nosso passado. E como muitos outros poetas o fizeram! O passado serve sempre de fonte de inspiração para se construir um futuro, para que dentro de nós se refaça a seiva lusitana e que dela brotem a audácia e a perseverança num renovado génio português. E como já referi, o poeta, não o quis ser com esta exaltação literária devido às incursões no popular do cancioneiro e na simplicidade da vida rural de culto religioso. Ora, aqui, o poeta despe a sua pele para vestir uma outra e assim se misturar no povo, para ele próprio conhecer melhor o Portugal que no fundo apenas ele via ao ritmo dos sentimentos sangrados do seu coração.
Convirá que seja feita uma referência ao saudosismo de origem Sebastianista dorida e aventureira, que originou um movimento literário na primeira década do velho século. A revista “Águia” tornou-se no elemento nuclear e de difusão das ideias do grupo de poetas que nela escreviam, e o mentor, Pascoaes, reconhecia esse saudosismo como o motor da produção literária poética.
Mas aquilo que Portugal é, já o era em 1920 quando das primeiras publicação deste livro e até muito tempo antes. Um Portugal brando, de vil tristeza, mártir da inveja que sucedeu à cobiça, preocupado em manter a grandiosidade perdida, que não se afastou nem se aproximou daquilo que poderíamos ser e que é sublimado por este livro. São estes os defeitos que reunidos num outro sub-capítulo, o autor aponta como aqueles da Alma Pátria, rematando com o vício que actualmente é mais agitado como bandeira: a Imitação. A imitação de que os outros (aparentemente) farão de bom…
«…quanto a estas qualidades, são as próprias da raça que devemos cultivar. Não há maior erro que a pretendida substituição das qualidades próprias por aquelas que admiramos nos outros povos.».
Este Portugal que mostra a sua feição real nos dias que correram e que correm, não conheceu este livro, ignorou a nossa alma pátria porque não se confrontou com ela em todas as acções diárias materiais e espirituais, e cujas virtudes nos poderiam ter catapultado para o lugar onde Viriato, D. Afonso Henriques, Nuno Álvares, Vasco da Gama, Camões ou Fernando Pessoa se encontram.
Viremos então os olhos para o futuro pois como já vimos a Alma pátria existe em matéria e alma, e está alicerçada. Acreditemos pois, livres, saudosos e independentes.
(é muito bonito falar, não é?...)

A Princesa - D. H. Lawrence

A leitura desta história na forma como foi escrita por Lawrence, deixou-me insatisfeito. Notei que a genialidade com que o autor escreve não se resume àquela amostra de talento deste piqueno livro. Algo de Lawrence ficou por mostrar verdadeiramente quando lemos as vigorosas descrições e as narrações das insípidas aventuras de “A Princesa”.
A história é a que se segue numa pequena síntese: Mary Henrietta perdera a mãe em tenra idade, cresceu segundo a educação que seu pai lhe impregnara, moldando-lhe o carácter com a pureza da sua origem aristocrata, superior aos restantes seres os quais deveria ignorar. Princesa, como lhe chamava o pai, era a última da sua linhagem e os dois formavam o par perfeito. A sua pose virginal ao passear pela rua revelava também distinção, mas sobretudo indiferença com a populaça vulgar, a qual aos seus olhos eram gente de baixa condição, sem modos e grosseiros... Estas atitudes granjeavam repulsa a esse ser pequenino com ar angélico mas ajuizado.
Foi este o carácter construído na sua infância que iria constituir a estrutura moral inabalável para o resto da vida, até perder o pai e desprender-se desses laços que a iriam lançar no caminho da "vulgaridade" como tantas outras, à procura de um companheiro, um homem... Muitos conheceu, essencialmente ricos, artistas, pintores, judeus e outros, mas a chama não apareceu, até conhecer num rancho, Domingo Romero, um mexicano típico, moreno de cabelo liso preto, descendente de vaqueiros e com a mesma expressão esvaziada tal como a princesa... Com estas personagens começa a tomar forma a abordagem que caracteriza algumas das obras de D. H. Lawrence: a apresentação do feminino virginal, senhor do seu nariz, culta e incapaz de mostrar afecto, em confrontação ao masculino personificando o macho sequioso de volúpia, másculo a roçar o animal mas capaz de se render a paixões arrebatadoras numa enternecedora entrega.
Lawrence explora estes aspectos com mestria, expõe o melhor e o pior dos seus personagens levando-os desde o olhar cúmplice que tanto os aproxima como logo a seguir os afasta para os extremos do diâmetro do círculo que acabaram de formar, rompendo-o por vezes em insanos impulsos que trazem à flor da pele sentimentos extremados. Logo a seguir, eles próprios sentem alguma revolta por encontrarem em si, o que mais temiam que fosse exposto... Estes são os aspectos positivos que nos fazem valsar de mão em mão com o amor, o ódio, o desejo e a frigidez.
No entanto, outros aspectos já não me cativaram de igual forma, como a súbita e pouco trabalhada adaptação da princesa do meio social buguês da costa leste americana, expoente da civilização, ao meio rural de um rancho escasso em luxos e com os costumes que uma senhora fria abomina. É sempre difícil uma adaptação destas, sobretudo para "esta princesa". O final surge também algo inesperado, parco em ideias, demonstrando uma tentativa de subtileza na conclusão, que a meu ver, não foi conseguida. Esta obra, “A Princesa”, considero-a como o primeiro passo para uma outra “A Virgem e o Cigano” um dos maiores êxitos literários do escritor, onde este concerteza teve mais espaço para reflectir as suas ideias e qualidades, opondo a moral ao mundano – A Virgem vs O Cigano.

02/02/08

Edifícios Dominantes

Variações de ritmo

(Guarda - Portugal)


(Holanda)

29/01/08

LAMBE-BOTAS - substantivo composto; 2 géneros e 2 números

Mário Soares em 29/01/2008, no D.N.

«...os lambe-botas e os maldizentes. Os "lambe-botas" são os que estão atentos aos sinais do poder, sejam quais forem - político, económico ou cultural - para, em genuflexão, colherem umas migalhas que caiam do poder. Às vezes migalhas, outras grandes benesses, conforme o jeito e o estatuto dos artistas da genuflexão

28/01/08

sobre o tempo

Das várias formas de um relógio me dizer as horas, o dia e o mês, esta em particular, agradou-me imenso.Direi sempre o mesmo do clássico régulateur:

24/01/08

música na minha juventude

Dif Juz: guitarrras a cortar como lâminas. Som perfeito, para mim. Não há voz.
E mais do mesmo:

E mais guitarras com Elizabeth Fraser:
Cocteau Twins - Musette and drums
Mais da nossa Fraser dos anos oitenta:

Cocteau Twins - Lorelei

09/01/08

Finalmente vai passar a circular-se a 60 Km/h dentro das localidades...



Publicidade abusiva

Compreendo que muitos dos sítios de notícias da internet tenham os seus patrocínios, pois sem o quais seria difícil a sua manutenção "on line".

Todavia, de todas as publicidades que de repente saltam-nos para a vista sem as termos encomendado, quase sempre com um "x" ou um "fechar" pequenino e escondido, esta foi a que abusou mais da minha paciência. Ocupa com cores berrantes boa parte da área do monitor, flutua atrás do rato de um lado para o outro, e não a conseguimos desligar.

Quem a lá colocou passou os limites e deve ser penalizado por isso. Não há nada na lei que impeça e sancione estas situações? Se há, então é favor aplicá-las.

19/12/07

Colar décadas a outras décadas

Edward Hopper foi um artista que soube representar magistralmente a realidade citadina norte-americana das décadas de 20 e 30. O quadro acima é um símbolo da genialidade do pintor.

O personagem do exterior do bar, em tronco nú e com uma lata de cerveja na mão, foi aí colado por outro artista - Bransky. O resultado tem um forte impacto e espelha bem a realidade actual, mas é, como aqui é referido, uma colagem.
Já nada podemos inventar realmente novo.

Vladimir Putin

Eis Vladimir Putin como personalidade do ano 2007 escolhido pela revista Time. Por ter recolocado a Rússia num lugar cimeiro do tabuleiro de xadrez mundial, Putin vê assim a sua foto na capa da revista mais conhecida do mundo.

O que constituiu critério de eleição à dita personalidade, aliás como todos os anos, foram os fins alcançados pela mesma e o impacto produzido, e não os meios utilizados, sendo nesse aspecto, muito mais meritório Al Gore que também foi um dos concorrentes à capa do ano 2007, entretanto relegado para segundo ou terceiro.
Assim é a vida na Time, sem margem para surpresas, afinal de contas em 1938 o homem do ano eleito pela Time foi Adolf Hitler. E para os anos de 1939 e 1942 foi escolhido um dos antecessores de Putin para a União Soviética - Joseph Staline.

14/12/07

Referendo popular ou ratificação parlamentar?

Tenho perguntado a várias pessoas o que pensam que seria melhor para todos nós, referendar ou ratificar no parlamento o tratado de Lisboa?
A grande maioria dá a mesma resposta e esta provém do quase total desconhecimento do conteúdo do documento, que demonstram com desembaraço, ironia e desdém.
Nos media tem-se falado muito sobre o que anda em redor do assunto, mas o essencial não é focado. Entre todo o folclore retêm-se escassas informações sobre a perda do peso dos países médios e pequenos em detrimento dos mais importantes e mais populosos. E o mais espantoso nisto tudo é a passividade manifestada acerca da eminente diminuição do nosso poder na U.E.
O problema, a meu ver, só será resolvido através do referendo. A discussão da questão nos jornais, nas rádios, na televisão e nas mais variadas sessões de esclarecimento, de forma mais ou menos exaustiva, obriga o português médio a informar-se da mesma forma e medida que o fez para o aborto, provavelmente matéria não tão importante como esta que teve origem no projecto falhado da constituição europeia.
Uma questão vital como é o tratado de Lisboa, não pode contornar essa imperativa necessidade dos portugueses ficarem a saber o que trata o documento, ou quem e como decidirá a sua vida futura europeia, mesmo a grosso modo, e em função disso decidirem. Penso que esta consulta é um direito que os poucos que decidem não podem alienar aos milhões de cidadãos que democraticamente elegem os seus governantes.

11/12/07

O senador Cruise

Tom Cruise está a ficar velho: já aceita papéis como senador norte-americano.
A genica, a dinâmica e os ideais de Cruise, sempre se adequaram a personagens de acção, tanto verbal como corporal que ele soube encarnar por diversas vezes. Piloto, advogado, agente-secreto, "sports agent", vilão, samurai, menino-rico, etc... Ou seja, figuras que não simbolizam o poder político. As que lhe assentam que nem uma luva, desde sempre, foram as que desempenhou em Magnolia, e em Uma Questão de Honra, a meu ver.

Agora reaparece em Lions for Lambs como senador. A idade não perdoa, ou será que não? O melhor é ver mesmo qual o tipo de político que Tom Cruise tem para nos oferecer.

07/12/07

A Bússola Dourada

Quando se procura alcançar pela mesma fórmula o sucesso e o prestígio de filmes sobre o fantástico como O Senhor dos Anéis, o resultado converge facililmente para o falhanço retumbante.
Fui vê-lo e não aconselho a ninguém.

A Eragon sucedeu o mesmo e n´As Crónicas de Nárnia o resultado ficou aquém do esperado, não fosse a fantasia recriada a partir do livro de C.S. Lewis, no qual se baseou.

A clientela deste género não se compadece com uma caracterização inconsistente, um ritmo lento com desnecessárias delongas em ambientes colegiais de inspiração britânica e finais pouco sérios prenunciando sequelas.

Há muito de déja-vu neste filme e das duas, uma: ou o conto de Philip Pullman não é facilmente adaptável a filmes de forte pendor visual, ou a realização escolheu o caminho errado para a sua transposição.
E depois vemos talentos como Jeremy Irons (Eragon) e Nicole Kidman a esbanjarem as suas pérolas por chão infecundo, por mais que apareçam bússolas nos Corn Flakes e nos Happy Meal´s.

08/11/07

Presunção e água benta, cada qual toma a que quer

No parlamento segue o debate, o duelo (sentido individual) ou batalha (no colectivo), pela melhor performance discursiva, pela demonstração do brilho retórico que culmina na defesa da honra ao invés de se iniciar e terminar no orçamento de estado para 2008, cujas opções nos preocupam mais do o verbo de belo efeito.
Sem acesso às emissões televisivas, leio no DN on-line um artigo de João Pedro Henriques sobre o assunto. Vejo apenas referências ao espectáculo e aos protagonistas. Da essência do orçamento, nada. Zero.
Fala-se da reacção do líder do PSD sobre o desempenho de Santana Lopes, referindo que Sócrates foi feio com Santana por não respeitar e maltratar um ex-PM.
Complementa a crónica com as declarações metafóricas de Menezes, fazendo, logo a seguir, um juízo sobre a cultura da esmagadora maioria dos portugueses. Segundo o cronista a essa "esmagadora" não alcança as seguintes frases: "Depois de Austerlitz há sempre um Waterloo", rematando Menezes com “Sócrates há-de ter o seu Waterloo”.

24/10/07

O Sétimo Selo, José Rodrigues dos Santos

Na oportunidade é que está o ganho”.
Esta é a fórmula que se aplica a José Rodrigues dos Santos. Significa que, consoante a actualidade do tema ou a lacuna na divulgação histórica, assim vai JRS debitando os seus romances e colocando Tomás Noronha nas rédeas dos acontecimentos.
De JRS li apenas o “Codex 632”, onde Tomás, perito em criptanálise e línguas antigas, é o personagem central. O mesmo Tomás cuja especialidade lhe dá entrada garantida em códigos e enigmas danbrownianos, é o protagonista de “A Fórmula de Deus”, um romance que calca a física, a cosmologia e a matemática, e vai agora até ao frio embrenhar-se na temática das mudanças climáticas, calcorreando a meteorologia, a geografia e a climatologia. Será certamente um multifacetado e versátil “Indiana Jones” dos nossos dias que teve de dar corda às sapatilhas, este Noronha.
O que reserva o próximo ano?
A que especialistas irá JRS bater à porta, que polémicas irá abordar?
Sucede que a piscadela de olho à Espanha e à Itália, e ao mercado da América Latina, implica um afastamento gradual do nosso cantinho nas histórias que JRS irá contar para o futuro. Implicará também um afastamento dos leitores nacionais, utilizadores de transportes públicos (e não só), os tais que fazem o grosso das vendas?
No entanto, não convém esquecer: romance, paixão, aventura, suspense e sexo, com pinceladas próprias, todos sob um manto de actualidade onde pulula a tecnologia. Ou então, de 3 em 3 anos, converter a urdidura num romance histórico que tape o buraco não preenchido pelos romancistas, sobre um capítulo da nossa história.
As referências a Michael Crichton e John Grisham estão aqui justificadas. Eis o techno-triller nacional.
Deixo a esse propósito, um link interessante sobre Michael Crichton e a novela "State of Fear".

21/10/07

O Sétimo Selo, José Rodrigues dos Santos

Eis o novo romance de José Rodrigues dos Santos. Segundo deduzi do prólogo distribuído pelo DN este sábado, trata-se de um thriller em redor de um tema central que está na ordem do dia: o aquecimento global e esgotamento das reservas petrolíferas. À semelhança de A Fórmula de Deus e de uma investigação profunda, surgem paralelamente as explicações científicas colhidas a partir de especialistas da área, recheando assim o conteúdo com uma informação que irá "deliciar" o leitor. Novamente cabe ao romance o papel de difusor do conhecimento, misturado-o com o prazer da leitura (para quem gosta do estilo de JRS, claro está).
Na oportunidade é que está o ganho, diz Carlhos Fiolhais, cientista da universidade de Coimbra. Depois da exploração do filão da Ilha das Trevas timorense, de com A Filha do Capitão ter preenchido a lacuna da falta de um romance português sobre as trincheiras de 1914-1918, do ovo de Colombo que foi o Codex 632 e da aventurosa invocação do nome de Deus na respectiva fórmula, eis que aí estão as alterações climáticas.
Na entrevista dada ao DN, penso que foi dada resposta a uma das questões com que sempre me interroguei, acerca do tempo disponível que JRS possuía para escrever todos os anos um romance de 600 páginas:
- Já explicou que não se recusa cumprir horários, respeitando aqueles que lhe impôem o trabalho e as chefias. Conseguiria escrever um livro de seis em seis meses com o horário de um jornalista "normal" - ou mesmo com o horário que tinha quando era director de informação?
- Não só conseguia, como consegui. A Filha do Capitão, o meu mais volumoso romance, foi pesquisado e escrito integralmente quando eu era director de informação.
- Cita, no final do livro, mais de uma dezena de volumes consultados. Como consegue conciliar o trabalho, nomeadamente a apresentação no Telejornal e as aulas dadas na faculdade, com uma pesquisa tão promenorizada e a produção de um livro por ano?
- Trabalho muito rápido. Escrevo profissionalmente desde os dezassete anos e é normal para mim redigir dez páginas num único dia. Quanto à pesquisa, ela resulta sem dúvida do meu treino académico.
- Diz que pesquisa e escreve muito rapidamente e até já chegou a redigir 20 páginas num dia, e que se não fosse preguiçoso poderia escrever dois romances por ano. Não sente a necessidade de rever, corrigir, desfazer e voltar a escrever mil vezes antes de publicar?
- Claro que sim. Aliás devo ter lido O Sétimo Selo umas vinte vezes, sempre a corrigir, a cortar e a acrescentar, até me dar por satisfeito.

18/10/07

Rio das Flores, Miguel Sousa Tavares

Ora aí está: o tão aguardado novo romance de Miguel Sousa Tavares - Rio das Flores.
De facto, esta época da rentrée está ao rubro. Ontem,
Eduardo Pitta, falava de engarrafamentos. Lançamentos para aqui e apresentações para acolá. Gonçalo M. Tavares ganha prémio Portugal Telecom, Anne Enright leva o Man Booker Prize 2007, e Doris Lessing ao chegar das compras dá conta que tinha ganho o Nobel.
Ficaria feliz também, se me caíssem do céu os 29,00€ para comprar este novo livro de M.S.T., onde constam 632 páginas e uma capa com foto bicolor pouco apelativa, mas com ilustração significativa de uma das paisagens onde certamente decorre o romance: Brasil, a que se juntam Espanha e Portugal.
A primeira tiragem ultrapassa os 100.000 exemplares e só lhe vamos por a vista em cima no dia 29. Um pouco arriscado, tendo em conta a experiência com Equador ao ter apresentado na primeira edição alguns erros, sobretudo os históricos. Mas, pronto, "Errare humanum est" e errando aprende-se muito. Como consequência, M.S.T. já deve ter consolidado a sua faceta de romancista.
Segue-se a breve trecho, José Rodrigues dos Santos com novo livro (mais um de 600 e tal páginas). Conclui-se que os portugueses gostam de longas novelas.

17/10/07

Talking Heads night

This Must Be the Place (1984?)

Slippery People - (198...)
Sax and Violins - (19...)
And she was - (198...)
Psycho Killer - (198...)

A minha favorita?

Falling, falling
Gonna drop like a stone
I'm falling through the atmosphere
On a warm afternoon
If lovers discover
That everyone dies
So don't tell me, please hold me
It's a dangerous life
Daddy dear
Let's get outta here
I'm scared
Ten o'clock
Nighttime in New York
It's weird
If you're looking for trouble
Well, that's what you will find
Mom & Pop
They will fuck you up
For sure
Love so deep
Kills you in your sleep
It's true
Love keeps us together
And love keeps us alive...

15/10/07

Esteiros, Soeiro Pereira Gomes

Há obras imortais, que definem ´per si´ a excelência do autor. Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, é disso exemplo, com publicação em 1941 e ilustração de Álvaro Cunhal.
Foi escrita num estilo realista – típico no autor - que põe a nu a condição social precária de um grupo de gaiatos ribatejanos, sem quaisquer dramatismos e sem qualquer manto que escamoteie a vida cruel de uma educação sem escola e de uma adolescência de árduo labor, cuja precisão impunha nos telhais e nos Esteiros do Tejo.
Denuncia, sem o querer, uma sociedade atroz, de costas voltadas para um povo que subsistia, como classe proletária, à qual esses rapazes reagiam com as armas que lhes estavam à mão, e que lhes alimentava a astúcia na mesma medida que a cólera; alguns estavam conscientes disso, contudo impotentes - a corrente da vida era tão forte como a do rio que segue somente num sentido.
Esta é com certeza uma história entre muitas outras, é a história contada da realidade de muitos que sobreviveram e pereceram aos Esteiros do rio e à constante agressão de uma sociedade sem dó e com uma autoridade senhorial.
Trata-se portanto, de um retrato pungente, simples como eram aquelas vidas, que os ia vencendo, fosse no rio, fosse na fábrica grande ou nos telhais do estio. Não há ironias pífias nem inócuas, truques ou grandes artimanhas narrativas. Contudo, foi marcada por um dos mecnismos mais sombrios da 2.ª república, e para que este actuasse bastou retratar o Tejo tal como ele era e a vida das suas gentes, para que ceifassem com a censura, a obra ao nascer, como quem manda por terra uma seara que cresce do chão, chão que gente humilde pisava. Repito indignado. Como se não bastasse o destino cruel e a fome dos miúdos, tinham que vir com a censura do estado novo, calar a voz de quem apenas com mérito literário, queria falar com o resto do mundo sobre os Esteiros do Ribatejo.
Hoje em dia, este livro figura na lista dos recomendados para o secundário, nota qualitativa da narrativa ímpar do realismo do autor. Os brilhantes diálogos entre os miúdos são pérolas literárias do neo-realismo português que me fazem lembrar a “Gândara” de Carlos de Oliveira; repescam modos de falar antigos, ditongos e calão desaparecido, costumes e gestos típicos da região na época, aqui reavivados e imortalizados.

Excertos:
«Maria do Bote abriu a porta, e tudo em casa lhe pareceu mais sombrio e nu. Apenas, sobre a cómoda carunchosa, o despertador alardeava brilho, mantinha a mesma cadência das horas que não vivia. A dona olhou-o, melancólica, como a um traste inútil; depois, em súbita resolução, pô-lo debaixo do xaile, e dirigiu-se ao escritório do Rodrigues.À entrada ainda hesitou. Mas o penhorista chegou-se logo com modos animosos.
- Faz favor de entrar. Um seu criado, minha senhora.-E esfregava, uma na outra, as mãos peganhentas. - Sr. Rodrigues. Eu trago aqui...»
pág. 126.
«A manhã é ainda um pressentimento, mas já no quartel o despertador anunciara o dia. Os valadores deixaram a tarimba, que não acalenta fadigas; tactearam as pás, ao canto; e, depois de enganarem as bocas com naco de pão mais duro que a tarimba, meteram-se ao esteiro.
- Vamos a isto antes que a maré suba.As pernas resvalaram no lodo até aos joelhos, e a humidade arrepiou-as.»
pág. 137.

09/10/07

Paris antiga e Quartier Latin

Ai se eu soubesse ler francês decentemente!... ia ser o caminho para a bancarrota. Aqueles expositores ao longo do Sena, na rive gauche, e a cabeça quase perdida. Literatura - colecções antigas -, e pintura apelando a Montmartre e aos pintores holandeses do impressionismo. Nem tudo ficou perdido, não se leu em francês, de pinturas não comprei nada, mas, experimentou-se cuisine française.

02/10/07

Le coeur de Paris

Nos corredores do museu do Vaticano o requinte era muito semelhante. Aqui no Louvre, uma perspectiva soalheira sobre a Apollo Galery, onde se exibe lá ao fundo a coroa da coroação de Louis XV. As pedras preciosas? Na casa das 400...

Le coeur de Paris


A vista frontal da Pirâmide. Alguém já lhe chamou uma cicatriz no solo de Paris. Eu não acho. A estrutura é indicativa da entrada principal, é transparente, tem o formato de uma jóia lapidada, entre muitas outras do Louvre, e acima de tudo é um sinal de modernidade equidistante às fachadas solenes do edifício do museu. A propósito do Louvre nos anos 70, recomendam-se as pistas deste extraordinário vídeo.

01/10/07

Paris Je T´Aime

Realizador: Vários (Gus Van Sant, Alfonso Cuáron, Joel Coen, Walter Salles, Alexander paine, Wes Craven, etc...)
Actores: Seteve Buscemi, Juliette Binoche, Nick Nolte, Willem Dafoe, Natalie Portman, Bob Hoskins, Gena Rowlands, Rufus Sewell, Emily Mortimer, Gérard Dépardieu, Ben Gazzara, Ludvine Sagnier, Fanny Ardant, etc...
Ano:2006
Classificação: Excepcional


Vi-o num dia destes à noite, até altas horas da madrugada. Não se trata de um filme convencional, mas de um encadeamento de histórias distintas com personagens e atmosferas diferentes. São todas rodadas em Paris, cada uma com 5 a 6 minutos e dirigidas por um leque de realizadores internacionais – “c´est un film colectif”. Tal e qual como um livro de contos ou fábulas de vários autores, onde cada um discorre sobre o mesmo tema na sua curta-metragem. Muitos deles são episódios insólitos, alguns com um realismo aceitável, outros inverosímeis ou hiperbolizados, mas a arte destes génios da câmara, aviva e alerta a mente por vezes de forma tão simples e singela, sobre o que significa viver num amontoado de edifícios monumentais ou periféricos, entre 10 ou 12 milhões de pessoas, realçando as suas consequências, sobretudo as intolerâncias do cidadão para com a comunidade retalhada.

Falado maioritariamente na língua de Truffaut, apresenta uma ou outra história em inglês que com certeza não iria agradar ao ex-presidente Chirac. Repetindo uma das deixas que ainda ecoam na cabeça: “Podias falar em françês, uma vez que estamos em Paris”, retorquiu Ludivine Sagnier a Nick Nolte, em Parc Monceau.
Assim interpretei o filme, à mistura de um cheirinho forte da cidade luz ou da cidade do amor, com todo o seu misticismo e encanto arquitectónico tão próprios, tal como o é o seu cosmos que abraça um sem número de raças, credos e estilos de vida, talvez só superado, na Europa, por Londres. Voltando à componente social, muito bem representada, fala-se da dualidade entre franceses e emigrantes, estes últimos magrebinos, árabes, asiáticos e sul-americanos confinados quase sempre, às periferias da memória urbanas num tom cinzento que o betão galopante confere.

É claro que o retrato de uma cidade como Paris, mesmo quando filmada pelos mais jovens realizadores deste lote, vem sempre carregado de emoção e nostalgia. Tal seria impossível de evitar porque em qualquer enquadramento a cidade revela sempre um retalho de uma fachada ornamentada a pedra calcárea, ou o traço das ruas com o equilíbrio geométrico de Haussman, ou uma placa do metro sugerindo a Art Nouveau da Belle Époque, encimados pelo raio de luz giratório emanado da Torre Eiffel ao som de um acordeão.
O meu imaginário desta cidade foi, e é, sobretudo romântico. Penso que nunca deixará de o ser, por isso concluo que Paris não muda, jamais estará diferente da última vez que a vimos... Os amantes terão sempre a sua Paris, como sentenciou Humphrey Bogart a Ingrid Bergman em Casablanca. Esta semana, se Deus ou o Diabo quiserem, vou cultivar esta minha admiração à cidade que Von Choltitz poupou da destruição na 2.ª guerra mundial, como bem me recordou o Cazento.
Place des Victoires de Nobuhiro Suwa, Père-Lachaise de Wes Craven e Place de Fêtes de Oliver Schmitz, das 18 peças, estas foram as minhas preferidas.

28/09/07

Paris é Uma festa

Paris, primeiro avanço.

A pesquisar se vai entendendo o porquê das coisas, peça a peça. Em 1955, o jornalista Garcia Marquez, foi enviado à Europa pelo jornal colombiano El Espectador. No ano seguinte, com o jornal fechado pelo governo, exila-se em Paris e experimenta um período com muitos problemas financeiros. Foram tempos difíceis, onde ensaiou e amargou a vida do artista sem rendas, dependendo apenas de "milagres quotidianos" que lhe garantiam alguns francos, mas que lhe fomentaram uma das fases mais produtivas enquanto escritor. Saem para o papel Os funerais da Mamã Grande e
Ninguém Escreve ao Coronel. Este último, escrito e reescrito inúmeras vezes durante esse ano na cidade luz, relata uma história latino-americana de um Coronel reformado e de sua mulher asmática, que religiosamente, todas as sextas-feiras, se apresenta nos correios expectando a chegada da prometida reforma. Enquanto a dita não passa de promessa, percorremos uma fantástica viagem literária de peripécias que tentam afastar a miséria e dar algum sentido à vida. Deve ter sido o que o desafortunado colombiano passou nesse ano em Paris, como contou acerca dos dias a fio em que descia as mesmas escadas até ao correio aguardando ansiosamente a correspondência de Bogotá. O mesmo ano em que Marquéz e a mulher mediaram as crises conjugais do casal Vargas Llosa e que lhe valeram, tempos depois, um valente soco em cheio no olho esquerdo, do colega peruano.
Dos tempos de Paris o resultado quedou-se nesse brilhante retrato da velhice e da burocracia sul-americana: Ninguém Escreve ao Coronel, adaptado também ao cinema em 1999, por Arturo Ripstein.

Isto a propósito da influência que a capital francesa e a sua cultura exerceu sobre mais um escritor, entre tantos outros estrangeiros, Eça, Hemingway ou Vila-Matas...

Só passei uns dias em Paris, em 1994, mas após essa estadia já viajei até aos seus bairros e às margens do Sena por várias vezes. Ainda há pouco aí fui pelas páginas do Fio de navalha de Maughan ou pelas curtas metragens de Paris Je T´Aime. Vamos ver que dias me esperam. Molhados, seguramente. Mas, até lá, segue-se Paris Nunca Se Acaba de Henrique Vila-Matas nos anos setenta.

À Nuit Blanche de Paris, vou falhá-la por um dia, quem diria. Semelhante àquela que se realizou em Madrid, além do mais até por ser a noite original conceptual, a Nuit Blanche é uma noite em que não se dorme por esta oferecer inúmeros espectáculos de rua e por ter os museus e outros estabelecimentos públicos abertos, para que os naturais, e eventuais turistas, possam desfrutar destas actividades, eventos e exposições artísticas de forma contínua e grátis. Pede-se somente a São Pedro que não chova. Nem é preciso sol, basta o bom tempo.

27/09/07

Critérios editoriais




Ou seja, o critério é o seguinte: de quem é que os portugueses têm mais inveja de momento? De um ex-primeiro-ministro ou de um ex-treinador do Chelsea? Daquele que diz aos portugueses "esperem por mim" ou o que diz "para Portugal não, por agora"?

Não sei como é que o acontecimento de um treinador multimilionário descarregando as suas malas na Portela, tem mais importância que o comentário de um ex-primeiro-ministro sobre este período de crise generalizada! E de todas a mais preocupante é a crise que assola a mentalidade dos nacionais, editores de programação incluídos.
Dar asas ao imaginário é mais fácil e reconfortante. Imaginarmo-nos na pele de um rico e famoso que veio ao país natal passar dois meses de férias, é muito mais simples para o português médio, do que pensar nos problemas do país e na saída para eles. É assim que alguns pensam (ou a maioria, já nem sei...) sobre o que querem e o que precisam os portugueses.

25/09/07

Quem já não atura elogios ao Râguebi levante a mão *

Sou da mesma opinião, o que é demais cheira mal. Cheira mal e é estranha esta súbita paixão que atacou parte da blogosfera.
Não ignoro que a selecção seja amadora e que nunca tenhamos ido a um campeonato do mundo, agora possível graças ao sacrifício e ao admirável espírito de equipa. Mas por não dever ignorar esse feito, não significa que deva prestar um serviço continuado de adoração como muitos bloggers e jornalistas, muitos deles leigos na modalidade, fazem em torno dos nossos Lobos, quando estes levam cabazadas atrás de cabazadas como se fossem mártires ou azarados.
Não são nem uma coisa nem outra, e a modalidade para crescer cá no cantinho não necessita dessa ajuda descabida. Como tal não os carreguem ao colo, até porque são bem pesados e além disso srs. doutores e srs. engenheiros aguentam bem as amarguras de derrotas por 108-13, como sucedeu contra a Nova Zelândia.
Mas pronto, já sei que a febre vai passar mal sejam retirados os prolongamentos dos postes, voltando tudo ao normal, até as balizas voltam a ser rectângulos deitados. Quando o campeonato acabar, só vai dar crónicas sobre o "cantinho do hooligan"; Porto para aqui, Benfica para acolá, etc e tal. O Uva, o Morais e a companhia, vão cair num esquecimento injusto e cruel. Então para quê este delírio colectivo?

* título retirado do DN de hoje.
Adenda: no último jogo com a Roménia mais um objectivo falhado. Os romenos estavam ao nosso alcance, estávamos galvanizados e perdemos por 14-10. O campeonato, a meu ver, não foi brilhante. Boys come back home, you´re welcome.

24/09/07

O Afinador de Pianos, Cristina Norton

Cristina Norton é uma escritora nascida na Argentina e naturalizada portuguesa, que agora publica na D. Quixote, um romance que liga três países de dois continentes distintos e relata a vida de um afinador de pianos – Benjamim.
Este personagem vivia em Madrid com a sua mulher, porém, por motivos profissionais, necessitou de cruzar a Espanha até à Galiza antes da guerra civil espanhola. Nessa região remota conhece Ângela, uma professora de música pela qual fica embeiçado.
A guerra rebenta e dura 3 longos anos que o separam da família em Madrid. Impelido por uma situação insustentável, deixa a Galiza com Ângela e segue para Portugal, que sob o jugo salazarista mantém-se neutro durante as guerras pós 1918, ano que pôs termo à 1.º grande guerra mundial.
O fio do romance segue na capital portuguesa, de onde parte depois na direcção do sul do continente americano.
Trata-se de um livro que fala da emigração transatlântica, entre 2 continentes, passado maioritariamente no território argentino que acolhe Benjamim e Ângela para uma incansável labuta, tornando Benjamim num profissional exímio e num hábil comerciante.
A história transpira a nossa saudade portuguesa de um país que a autora cedo abandonou e que aqui decidiu expressar. Contudo, esse sentimento para os naturais sul-americanos é próximo daquilo que designam como nostalgia. Termo talvez mais acertado, se levarmos em linha de conta a dedicatória desta edição da D. Quixote, em que Cristina Norton de Matos homenageia a sua irmã sua eterna interlocutora na país natal.
A estrutura narrativa assenta numa pesquisa história apurada, feita provavelmente no próprio local dos ambientes físicos de Madrid e da Galiza, focando e reconstituindo a época da guerra civil que motivou a diáspora dos galegos para a Argentina e mesmo para o Brasil.
Lisboa é também muito bem revisitada. Consegue-se recriar uma capital portuguesa difícil de imaginar, onde se recebiam refugiados de guerra (fez-me lembrar uma das últimas cenas do filme Casablanca), onde a escritora dá uma imagem cinzenta da cidade, do amontoado dos exilados amargurados, que guardam uma centelha de esperança de retornarem à sua vida ou de reconstruir uma nova, deste lado ou do outro do oceano.
Quando a história salta para o outro lado, para a Argentina, o cenário ainda é mais diferente do que fica para trás. O país é multi-racial, multi-facetado e está marcado pela guerra. Nesta manta social e política, reconhece-se uma metrópole que é a cidade europeia mais a sul do mundo. Sobressaem os Nazis, os franceses e outros europeus, como refere a autora: os emigrantes são em boa quantidade instruídos e cultos. A nação argentina só beneficiou com esse facto, inclusivé no campo da própria literatura o que justifica que na época houvesse uma elevada taxa de alfabetização no país. Novamente se percebe o motivo do carácter argentino, muito opinativo, informado e cultivado.
O país e a sociedade passam a ser também muito influenciados por Peron e por Evita, da mesma forma que a Espanha foi marcada por Franco, ou a Itália de Mussolini.
É um livro interessante, onde paralelamente se podem evidenciar por exemplo, no início do romance, o aspecto da cobardia conjugal, a mentira sedutora, onde subjaz uma culpa que serve de móbil à procura de uma nova vida com uma relação que sirva de apoio moral a Benjamim. Apoio esse que ficou para trás algures em Madrid, numa guerra civil que não se sabia quanto tempo iria durar.
Ângela, a professora de piano, pela forte afinidade que estabeleceu com o afinador, passa a acreditar na ideia de uma relação com futuro e de felicidade com aquele homem.

Como nota final, refira-se que a edição que possuo é de 1997, da Europa-América, colecção Talvez Ler.

23/09/07

4 Livros e mais Um












A Magia de Ler - José António Marina (edit. Ambar)
Como Ler e Porquê - Harold Bloom (edit. Caminho)
Como um Romance - Daniel Pennac (edit. Asa)
O Prazer da Leitura - Marcel Proust (edit. Teorema)
e mais um:
Porquê Ler Os Clássicos - Ítalo Calvino (edit. Teorema)

20/09/07

O Meu Nome É Legião, António Lobo Antunes *

Sabes filho, isto de estar vivo não vai acabar bem. (Manuel da Fonseca).

Ouvi António Lobo Antunes em auto-retrato na entrevista de há um ano atrás com Carlos Vaz Marques. De vez em quando revisito o extraordinário arquivo do Pessoal e Transmissível para em silêncio escutar alguns dos meus portugueses favoritos.
Não conheci o Lobo Antunes do antigamente, polémico dizem, enquanto cronista do Público e outros. Parece-me que pela atitude, actualmente é um ser mais sereno e solitário, um homem que foi encontrando humildade no decorrer da sua obra, que fala na idade de 64 anos sobre a bondade com a mesma importância de que falava sobre a inteligência aos 16. Recorre variadas vezes, não em tom de saudade, mas em tom de respeito e admiração a lembranças e frases do pai e da mãe, sobretudo às sentenças do progenitor. Cita provérbios, histórias e poemas num tom de voz tranquilo, num discurso entrelaçado numa ou outra graça, de onde irrompe um inesperado e agradável riso, sem ironia que se evidencie. Um ser humano interessante que procura a paz com o mundo. Porém, assombrado pela idade, pelo número que combina o 6 com o 4, como um Animal Moribundo, o título de um livro de Philip Roth que há pouco leu.
Uma das tiradas que me ficou fala da humildade novamente, refere que com a idade ficamos mais humildes quando vemos a distância enorme ente aquilo que sonhámos e aquilo que conseguimos.
Não deixa por isso, mesmo anunciando que 25% dele é alemão, conforme referiu há dias no festival de Berlim, de ser por inteiro um português, triste, melancólico, com o semblante do tudo isto é fado.
* Novo romance a lançar em Outubro pela D. Quixote.

19/09/07

O Leopardo, Luchino Visconti

"Então, quando estiver a morrer o quadro vai ser este? Nunca imaginaria." Estas palavras proferidas pelo personagem central do filme acabaram por me deixar uma marca, enquanto este, contemplativo, olhava para o quadro ao alto meditando sobre a morte.
O Leopardo [Il Gattopardo] passou no Gallery numa destas sextas-feira à hora do meu jantar. Baseado no romance de Giuseppe Tomasi de Lampedusa, incluído na antiga colecção da Visão, a sua adaptação ao cine sempre me intrigou devido às inúmeras e elogiosas referências feitas aqui e acolá.
O enredo move-se em torno de 4 personagens: o Príncipe Don Fabrizio Salina (Burt Lancaster), Tancredi Falconeri (Alain delon), seu sobrinho, Angélica Sedara (Cláudia Cardinale) e Don Cagolero Sedara (Paollo Stopa), pai desta. O personagem principal, Don Fabrizio, é interpretado por um nova-iorquino - Burt Lancaster -, proveniente da mesma cepa de Kirk Douglas. Ora, para um actor com origem na escola americana, seria, à partida, difícil de encarnar um príncipe siciliano.
Porém, depois de perceber o intuito do realizador com este filme, digo que Lancaster foi magistral.
Nas cerca de 2 horas e meia de retrato da conturbada época da unificação italiana, Visconti escolhe o cenário da Sicília, sintetizando nesse local a grande transformação social que o século XIX trouxe à Itália e à Europa e que implicou uma aproximação entre as classes sociais seculares. Por um lado a nobreza aristocrática detentora de um patamar elevado onde subjaz o poder e a tradição, por outro a Burguesia emergente e endinheirada, ávida pela ascensão. Digamos, que no Príncipe de Salina está concentrada a linhagem nobre decadente do final do século, e a Burguesia ambiciosa é representada por Don Cagolero.

O Príncipe, homem sábio, pressente os ventos de mudança que passam e marcam com melancolia um semblante já de si altivo e solene. Lancaster soube construir de forma exímia o Príncipe siciliano. Ao Óscar que o filme arrecadou deveria juntar-se o de melhor actor principal.
O golpe final dessa aproximação entre classes, sobressai simbolicamente no episódio do baile final, onde o Príncipe abre a noite ao dançar com Angélica, noiva de seu sobrinho. Salina rende-se à inevitabilidade. Aqui distinguem-se duas cedências, a primeira à importância galopante do poder burguês, e a segunda à beleza ímpar com quem Falconeri desposará - Cláudia Cardinale. Interessantes estas duas perspectivas, que conduzem a uma reflexão. A nobreza de porte fino e fleumático de mão dada à classe média sedutora e bela, sem no entanto conseguir esconder o deslumbre. Fabrizio Salina aceita o desposo do sobrinho, e assim corrompe e é corrompido, é útil e agradável*.
Paralelamente, tentei captar algo que me levasse a entender os porquês da origem da "cosa nostra" siciliana. À partida não tive grande sucesso, pois as atitudes expressas na recusa do Príncipe em ingressar no novo governo nascido do movimento militar levada a cabo por Vittorio Emanuele II, significam o desencanto do Leopardo perante o rumo que o seu mundo levava. Do velho para o novo mundo. Mas não estará aqui algum sinal sobre o futuro, neste virar de costas da aristocracia siciliana, numa ilha árida e pobre, isolada do resto da península agora em reestruturação?
O baile termina e o filme também. Alguma coisa mudou para tudo ficar na mesma (diz a frase inicial do livro)*.
Dois conselhos: a leitura do livro e o visionamento do filme.