31/05/07

A Cidade e As Serras


Entre a vasta obra do nosso querido Eça, decidi ler há pouco tempo, este "A Cidade e As Serras", movido pela curiosidade e algum fascínio acerca da civilizada e moderna vida parisiense do início do séc. XX.
Como é sabido, por obrigação profissional, Eça era um bom conhecedor da cidade de Paris. A sua carreira diplomática já vinha das experiências de Havana e Inglaterra, passando a ocupar o cargo de cônsul em Paris, a partir de 1888.
A cidade luz, sempre exerceu uma forte influência sobre artistas, escritores e políticos portugueses, sobretudo naquela 2.ª metade do séc. XIX e inícios do séc. XX, e para isso contribuíram muito a exposição universal de Paris e os jogos olímpicos da era moderna.

Eça foi um deles. Repartia-se então, entre a cultura francesa e a portuguesa, que segundo este afirmava, era uma feliz reprodução, importando o can-can, comida e literatura francesas. No entanto, nem tudo nestes intercâmbios culturais, agradava ao escritor. Eça criticava abertamente a sociedade, as alterações e o esquecimento a que os usos e costumes estavam a ser sujeitos. Como ele dizia, na nossa capital quem quiser aplaudir uma comédia de Garret, ou comer um arroz de pato não conseguia. (...)Portugal é um país traduzido do francês em vernáculo(...)

Daqui se pode avaliar a aguçada visão de Portugal que Eça mostrava possuir, e que pautou muitos dos seus romances sobre os mais variados quadrantes da sociedade portuguesa, tornando-se em incontestáveis obras literárias que genial e ironicamente expuseram aquilo que o país era, ou pretendia ser.

Voltando ao romance em causa, o protagonista é o personagem Jacinto, um burguês proveniente da família dos senhores de Tormes, no Baixo Douro, mas com morada no 202 dos Campo Elíseos, em Paris.

O escritor narra-nos então, por intermédio do seu amigo Zé Fernandes, na primeira pessoa, a vida deste e de Jacinto, intimamente ligados por uma profunda amizade com origem nas famílias senhoriais do Baixo Douro.

Apesar destas raízes portuguesas, Jacinto nascera no dito 202 dos Campos Elísios, onde se encontrava edificado um palacete comprado pelo avô a um príncipe polaco. E aí Jacinto cresceu em berço de ouro, onde sua avó espalhava âmbar contra a má sorte, e onde este era rodeado por enciclopédias de conhecimentos universais que iam enchendo e ampliando a biblioteca, à medida que este ia crescendo forte e culto.

Focando a questão central, cidade versus serra, pela narrativa de Zé Fernandes, concebemos que o seu “príncipe”, Jacinto, crescera educado no meio de uma civilizada cidade, que em progresso, lhe moldava profundamente as ideias e o conceito acerca da felicidade do "homem" moderno. O homem só a alcançaria, por intermédio da sua civilização, e com efeito, desde as noções expostas na antiguidade por Aristóteles até às mais modernas invenções, nas quais se incluem a roda e o telégrafo, este com o físico potenciado pelos mecanismos por si criados se tornaria num Adão moderno, que iria fruir de todos os prazeres emanados dessa sabedoria.

E na sua juventude assim ia Jacinto, ao lado de Zé Fernandes e outros amigos, ensaiando estas teorias que lhe construíam o carácter e a convicção, dando-lhe um fio condutor de governação moral inabalável. E a sustentar-lhe essa convicção, o felizardo Jacinto, que não encontrava dificuldades na obtenção dessas invenções, mais felicidade colhia quando olhava no seu telescópio, conversava no seu telefone, ou conferenciava no seu conferençofone, sendo apenas abalado quando Zé Fernandes recebia cartas do seu tio de Guiães, queixando-se da velhice e pedindo-lhe o seu retorno ao Douro.

(...)Para Guiães! Oh Zé Fernandes que horror!(...) dizia Jacinto, que só de assomar a ideia de encontrar os bichos, as pedras e o mato, o inquietavam.

Sete anos volvidos, Zé Fernandes retorna a Paris e ao 202, encontrando um Jacinto ocioso, farto da sua sociabilização e da sua civilidade. Jacinto era outro, tinha funções e compromissos sociais, era membro e sócio de inúmeros clubes, colectividades, comités e tais. O palacete comportava agora toda modernidade possível e imaginável que só alguns dos melhores palácios possuíam. De quando em vez a tubagem da sua novíssima rede de água quente, rebentava. Noutras, de repente, a luz eléctrica sumia do 202, ficando abandonado às escuras. Uma outra vez, num jantar social em honra do Grão-Duque, o ascensor que trazia o peixe assado oferecido por este, ao subir da cozinha, encravou a meio. E depois destes embaraços e destas maçadas todas, íamos dar com Jacinto a bocejos num desânimo crescente.

Nestas pormenorizadas descrições, Eça mostra a sua magnificência, descrevendo com uma riqueza e frescura, que eu chamaria visual, todos os elementos onde a acção se desenrola, tanto os ornamentos do espaço como os trajes que os personagens envergam e o seu estado de humor. Há descrições, designadamente da biblioteca, que são fotografias escritas como a que sucedeu quando o fastidioso Jacinto, ao ir para a cama, lembrou-se de levar um livro como companhia.

O escritor, neste episódio, consegue transmitir genialmente o estado de alma que Jacinto acumulava de ócio e desencanto, quando este percorre com os olhos a estante dos Romances, ou quando passa os dedos pelo ébano da prateleira dos poetas, ou quando se vira para os volumes da astronomia. O seu desequilíbrio emocional tornou-se evidente com os vários livros que apanhava e folheava sem gosto. As suas teorias e convicções vacilavam quando pegava noutros e os repunha, logo a seguir, no mesmo lugar. E de repente, acercado do conhecimento daqueles 70.000 livros de onde supostamente retiraria a sabedoria para colher a felicidade, no meio daquela luxuosa biblioteca, na cidade das cidades, no expoente da civilização, o super civilizado e enfadado homem agarra num jornal diário e vai para a cama.

No dia a seguir, abeira-se de Zé Fernandes e diz-lhe: Vou partir para Tormes!

Já em Tormes, e depois das deliciosas peripécias da viagem, pouco a pouco, torna-se evidente a metamorfose de Jacinto parisiense. Esse mudança dá-se, à medida que o homem que não prescindia do conforto da vida social urbana e da ciência, se vai entregando, paulatinamente, à simplicidade de uma vida rural dedicada à terra e às suas tradições, despojada de máquinas.

A aceitação destes novos valores e a sua entrega a esta nova condição social, é uma crítica que arremessa para o lado a burguesia que Eça via nessa sociedade portuguesa, vazia e amante da luxúria. Faz notar, com esta reviravolta cidade/serra, outra crítica, neste caso irónica, à desenfreada correria dos que se julgavam modernos com a aquisição e pronta rendição aos mecanismos domésticos, muitos deles fúteis; critica essa pseudo-cultura moderna que se entregava à máquina, deixando cair as tradições e os valores naturais do país. Eça, como se viu com o ascensor de cozinha, era mordaz, ridicularizou inclusivé, as ditas invenções. Mas Eça fá-lo como só ele sabe fazer, com a sua ironia alegre e descomprometida, em jeito de comédia denotando a habitual liberdade que caracterizam outras obras suas.

Estas considerações parecerem-me verosímeis, porque quem conhece Eça de Queiroz, sabe que nas suas obras se encontra essa crítica trabalhada e encapotada pelos episódios burlescos ao jeito "queiroziano". Além disso, sabe-se também que este era um homem aberto à modernidade que conheceu de perto em várias metrópoles, onde aliás, viria a morrer. Poderá portanto, ser paradoxal a conversão urbano-rural apresentada neste livro. Certamente que quando Eça o escreveu, com publicação póstuma, estaria na recta final da sua vida, reconciliando-se com ela na procura do balanço da sua passagem terrena. Todavia, a meu ver, tendo em conta o estilo de vida do diplomata e escritor, não me parece que no âmbito dessa reconciliação o escritor tivesse chegado às mesmas ilações a que Jacinto chegara, e a prova disso é a ocorrência da sua morte em França no ano de 1900.

Porém, nenhuma destas minhas reflexões me diminuiu o prazer retirado da leitura deste magnífico livro. Serviram apenas, para a inevitável comparação entre o protagonista da novela e a recheada vida do escritor.

Um último aspecto a realçar, reporta-se ao papel da mulher desempenhado nessa fase da nossa história, que me parece estar reflectido na obra. A mulher aparenta ter um papel secundaríssimo, ao aparecer no romance como o ser objecto apenas para um fim que é o prazer. No final da história, Jacinto, caminhando para a (sua) verdade, não surge num estado supostamente basilar e de partilha ao lado do outro ser do sexo oposto, neste caso, a mulher. Reflexo dos tempos.