16/03/07

O Fio da Navalha

O próprio nome do livro indica o tema – O Fio da Navalha. De fio a pavio, é a direcção “convencional” que uma vida deve seguir.
No caso deste livro de William Somerset Maugham, o rumo “convencional” da vida do personagem central do enredo, Larry, é quebrado aos 20 anos de idade, quando este regressa da 1.ª guerra mundial ao serviço da força aérea dos EUA.
É natural que qualquer indivíduo de 20 anos, ao regressar a casa, depois de ter visto morrer amigos num cenário horrendo e tenebroso, perca o norte e muita da sua capacidade de reintegração social – e eu diria também, muita da vontade de compreensão da vida burguesa que os amigos levavam, incluindo a sua noiva: a socialite Isabel.
Foi o que sucedeu com Larry e a muitos outros ex-combatentes, que de uma forma ou de outra, procuraram à margem da sociedade e dos próprios amigos, um sentido para a vida numa busca espiritual e de conhecimento – ou então, nos casos extremos, simplesmente acabaram com ela.
Larry, “estranhamente”, rejeitou do melhor amigo, imperdíveis propostas de emprego em correctoras.
Abdicou de uma vida familiar sem dificuldades, junto de Isabel, uma bela jovem "nouveaux riche" burguesa de Chicago. Não quis ficar no Eldorado da pujante América do início do século 20, e viajou para Paris, a capital da moda de artistas e intelectuais. Depois, foi trabalhar para uma mina de carvão no interior de França, viajou para a Alemanha, sul de Espanha, Itália, China e finalmente para a Índia – a terra dos “Ashramas” e dos homens santos que vivem sós em templos, nas florestas ou junto aos Himalaias, personagens de inspiração mística a quem tantos ocidentais batem à porta.
Não, o livro não se tornou numa espécie de auto-ajuda, longe disso.
Não há pretensão em dar lições, o próprio autor tem o cuidado e a seriedade de nos alertar. A narração fluída e equilibrada que é feita por Maugham na primeira pessoa, também ele um dos protagonistas, manteve a pluralidade de lugares e de personagens, num andamento constante, à medida do ritmo de Paris ou de Londres, pausada por curtas e breves aparições de Larry que descrevia de forma desinteressada e apaixonada, as suas viagens pelo oriente.
Este aspecto é um dos pilares da universalidade do livro, que, apesar de ter sido publicado na década de 40, é como um leque aberto, abarcando os mais variados estilos de vida e mentalidades – mundanos ou fidalgos - que os amigos de Larry e do autor, levavam no dito mundo moderno ocidental na fase pós grande depressão de 1929.
A escrita é simples e rica, no entanto, nesse aspecto, não me cativou tanto como Paixão em Florença - uma verdadeira "master-piece".
Sublinhe-se finalmente, no escritor, a sua sabedoria e grande vivência, pois parece-me ser um daqueles ingleses que percorreram, no início do século passado, o império e o mundo e tiveram a destreza de colocar em livros, que hoje em dia são designados como "os clássicos", o pulsar do nosso universo como o viram e o sentiram.

4 comentários:

Anónimo disse...

Já ouvi, já o tive nas mãos, e nunca li!

ZT

V.F. disse...

Por falar em livros, indica-se mais uma feira a realizar no Mercado da Ribeira, até 15 de Abril:

http://www.portugaldiario.iol.pt/noticia.php?div_id=291&id=787424

Livros em 2ª Mão disse...

Acabei de ler este livro hoje e vim à procura de opiniões sobre o mesmo.
Para mim, a personagem de Larry é deliciosa, avesso ao conforto material e indiferente às opiniões contrárias, na sua busca pela felicidade. Tomara que todos tivessemos essa coragem!
Agora fiquei com vintade de ler outras obras deste autor..

V.F. disse...

Exacto. Ele acabou por perceber que dispensava os bens materiais. Porém, no início, quando regressou da guerra, o que o moveu foi o vazio que sentia em relação à sua identidade e à sua função no mundo que o rodeava. Não acha?
Recomendo o Paixão em Florença do mesmo autor.