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19/06/08

Código Miguel Ângelo

Está encontrado o substituto do Código da Vinci, chama-se Código de Miguel Ângelo ou do inglês: Segredos da Capela Sistina. Depois de popularizada a ideia dos códigos, códices e enigmas, e após o sucesso do livro de Dan Brown, seguido de muito perto por várias réplicas, surgiu actualmente outro grande nome da época do renascimento com um código escondido na sua principal obra: Miguel Ângelo Buonarroti e o tecto da Capela Sistina.
Pintor, escultor, teimoso convicto, profundo estudioso e conhecedor da anatomia humana, faceta esta que muito contribuiu para as representações de David, Moisés e a Pièta, obras-primas da escultura, são agora colocadas sob a forma de literatura “industrial”, as teorias há muito difundidas de que Miguel Ângelo teria pintado mensagens subliminares nos frescos da Capela Sistina. Estejam atentos.

17/06/08

Crónica de Uma Morte Anunciada - Gabriel García Márquez

Esta novela, ou crónica, como é designada por Gabriel G. Márquez, é mais uma pequena amostra da talentosa escrita do Colombiano, e que pelo que me apercebo, foi o último degrau para chegar ao Nobel da literatura que a Academia lhe atribuiu em 1982.
A história desenrola-se num lugar do Caribe sul americano, onde Santiago Nasar, um jovem rico, solteiro e filho único, se vê como vítima de um ajuste de contas desencadeado por uma pueril declaração da irmã dos homicidas, feita após a sua atormentada noite de núpcias. Questões de honra e de virtude, como se pode adivinhar. Conforme sugere o título, trata-se então de um relato dos momentos que antecederam a morte constantemente anunciada, do jovem Santiago Nasar, entremeando avanços e recuos no tempo, encruzilhando assim os acontecimentos.
A narração é feita por alguém do povoado que conhecia Nasar e os restantes personagens, encetando mais tarde uma investigação acerca dos factos ocorridos que levaram ao fatal desfecho, permitindo uma melhor compreensão da psique das personagens e do móbil que as levava a agir de determinada forma.
A morte é, logo à partida, um dado adquirido, retirando-se qualquer suspense sobre o desconhecimento do final. Mas, o ritmo que marca o avanço da narração, intrincada entre o cepticismo da população e a lucidez de Nasar quanto à notícia antecipada que se espalhava como o vento acerca da sua morte, leva-nos por momentos a duvidar se esta em algum momento se iria consumar. Mas a morte ocorre, e da sua inevitabilidade vamos ficando certos quando vemos uma comunidade que possui tudo para a impedir, mas que nada acaba por fazer, remetendo-se ao fugaz encolher de ombros acompanhado do usual “...é uma patranha!”.
Mas até lá, hábil e talentosamente, o cronista vai espalhando em pequenas doses a sua magia e intriga, num cenário característico do Caribe sul americano com todas a cores e aromas derramados sob um sol abrasador e banhados pelo generoso rio, aparentemente a única via de ligação ao resto do mundo. Além disso o autor evoca, por mérito dos retratos às várias personagens, os costumes e valores herdados das sociedades dos países do sul da Europa fortemente influenciados pela excessiva religiosidade trazida para a América latina. Por outro lado, faz-nos também sentir que esta terra é uma nova terra, diferente da velha Europa, mostrando que este novo mundo é a pátria comum de várias raças e credos que convivem mutuamente. A prova disso é a origem muçulmana do próprio Nasar que vivia agora numa pequena comunidade árabe católica. Será certamente este o principal enfoque que G.G.M. quis retratar. Um povo ainda refém dos mesmos valores cujos avós lhes transmitiram, porém, à luz do sol deste mundo novo, tresandando ao exotismo destas comunidades cosmopolitas, surgem os desprendimentos das matrizes culturais e raciais primordiais, gerando individualmente conflitos interiores em reboliço de sentimentos, que colocam em dúvida os limites pré-concebidos entre o bem e o mal, entre a fraternidade e a obrigação.
Este conto é uma ficção, é certo, contudo apoia-se noutros contos e histórias de cariz popular que se vão perdendo ao longo do tempo, mas que por qualquer motivo se reúnem novamente, e neste caso pela mão genial de Gabo que com certeza cunhou esta bela história com vivências pessoais. E Gabo fê-lo de tal maneira que a descrição dos locais, a construção dos intervenientes, as relações entre si são tão intensas e possuem tanto de verosímil, que a minha mente enquanto leitor facilmente se iluminou e construiu ela também de forma tão real, as ruas da cidade, o molhe do cais, Santiago Nasar com o seu fato de linho branco a sair de casa, os irmãos Vicario de facas na mão com um brilho tão reluzente que quase nos atinge, fazendo-nos aproximar da fantasia desse pequeno universo. E são estas descrições, esta forma encantadora de escrever, é esta construção literária qualitativa que me cativa em G.G.M.
Este é um livro a recomendar aos amantes dos universos criados por Gabo. Apesar de ser de leitura rápida, convirá uma assimilação lenta para um bom proveito deste sumarento produto literário.

16/06/08

Morte em Veneza - Thomas Mann

Gustav Aschenbach, compositor buguês alemão, passa uns dias de descanso no Lido - a frente marítima de Veneza. Durante aquele período, entre a vida do hotel e as actividades balneares, Aschenbach observa as lides de uma família polaca com especial interesse no jovem filho com cerca de 14 anos -Tadzio-, cuja beleza o atraiu de forma arrebatadora.
O estóico e respeitável burguês da Baviera, passa então a conviver com uma difícil coexistência entre a sua rígida consciência e os impulsos obscuros que tenta esconder do jovem polaco e sobretudo da sua família.
Há quem afirme que nesta obra, Thomas Mann faz uma excelente reprodução do declínio da aristocracia europeia e uma brilhante análise da solidão do homem à margem do social, porém, escravo das aparências.
Eu penso de igual forma. Há que reflectir e tirar ilações da sociedade que nos rodeia impondo convenções absurdas e ridículas que mantêm o indivíduo e a sua liberdade numa espécie de cativeiro. É um dos meus livros.

17/05/08

Gaudì - Rainer Zerbst - Taschen

Gaudi arquitecto Catalão, deixou uma obra ímpar no campo da arquitectura.
Arquitecto inovador, colocava a sua racionalidade entre a fantasia e a realidade. Tornou-se num mestre ao conceber soluções arquitectónicas fora da matriz clássica e fora dos conceitos convencionais que sugeriam limites à arte de construir em meio urbano.
Gaudi foi único. Tinha um estilo muito próprio de projectar, fortemente influenciado pela natureza. Quer tivesse nascido Catalão, Japonês, Norte-americano ou Brasileiro, aquele génio criativo destacar-se-ia com as suas concepções em qualquer parte do mundo. E é de qualquer parte do mundo que afluem a Barcelona, pessoas para ver as obras que deixou pelas ruas da cidade.
Influenciado pelas transformações e inovações da revolução industrial, Gaudi foi um multifacetado artista, entusiasmando-se com a pintura e sobretudo com o mobiliário urbano metálico.
Penso que Barcelona deve muito a Gaudi. Como o próprio dizia, Barcelona na época era parca em monumentos e este convicto das suas idealizações ergueu no início do século XX edifícios imorredoiros. Mesmo nos dias de hoje ainda me surpreendem. E se reparamos, os actuais ex-libris de Barcelona são as construções de Gaudi.
Este livrinho da Taschen, tem no início uma pequena nota biográfica sobre o artista e uma compilação com 16 das suas principais obras, desde a Casa Vicens até à Sagrada Família, passando pelos interiores da Catedral de Maiorca. Não vou falar sobre a sua obra arquitectónica. Nem vou falar sobre o seu edifício mais badalado e polémico – A Sagrada Família. Polémico pela sua religiosidade, mas sobretudo, a meu ver, pela ausência de um plano ou projecto técnico para o ter levado a bom porto num curto prazo, encontrando-se ainda inacabado com implicações na utilização do interior. Note-se que as fachadas são uma das componentes de um edifício sendo o interior outra.
Das suas obras vou destacar uma das mais importantes – A Casa Milà. A Casa Milà foi concebida para albergar a família Milà. Deduz-se à partida que será um edifício de apartamentos. É, e não é, em simultâneo. A Casa Milà ou a Pedreira como é conhecida, é um edifício solto, livre de quaisquer utilizações pré-definidas. Essa liberdade é tanto visual com funcional. Os alçados formam um gaveto. Embora pareçam dicotómicos eles são como um só. Ao olhar para o gaveto, tomo-o apenas como um alçado, num plano único por onde flui o ondular dos balcões dos pisos, lembrando um oceano de ondas de pedra. Da cobertura, reconhecemos um volume ondulatório propositadamente criado para um contínuo das fachadas. As chaminés serão talvez o primeiro contacto visual que nos surge, sugerindo o que se quiser: monstrengos, personagens armados, dadas a várias interpretações. O sótão deixou de ser sótão. Passou a ser espaço útil, habitável, utilizável, abandonando a concepção que o condenava ao eterno armazém de velharias. No terraço, a geometria comanda, e daí podemos contemplar a arquitectura de uma perspectiva que a integra na urbe, como também se pode admirar a arte de Gaudi nos seus mais ínfimos pormenores. Cada vista é uma vista. Nunca é igual à que a precede.
Um à parte: repare-se que Gaudi não queria guardas-corpos no terraço, pois seriam depreciativos para a natureza robusta da obra. No interior, tal como no exterior, predominam as formas ondulantes, parabólicas, não lineares. Cada piso de 1600m2, divide-se em quatro partes de 400m2 cada. Ao repararmos, corredores, paredes, janelas e até os mais pequenos acessórios como maçanetas, patenteiam sob todas as perspectivas o movimento. É surreal, compartimentos desenharem formas não convencionais, mas o objectivo era mesmo esse. E nesses mesmos compartimentos de paredes curvilíneas os móveis convencionais não fazem sentido. Um banco corrido rectangular seria inútil, tanto pela estética como pela funcionalidade. Os ornamentos não ficaram de lado e seguem fielmente a mesma orgânica do grosso construtivo. No núcleo da construção, comuns às partes, existem dois pátios para fruição de luz e de ar, por onde penetra o sol e a claridade. De um dos pátios eleva-se uma bela escadaria metálica em espiral. Para além do original, da orgânica e dos materiais naturais, a singularidade que dou mais importância tem a ver com a versatilidade do edifício. É notável que Gaudi tenha no início do séc: XX, dotado uma construção com toda a liberdade construtiva e funcional. A Casa Milà pode a qualquer altura acolher um hotel, ou serviços. As paredes, os panos de divisórias, não estão lá para além de serem uma envolvente desprendida de uma estrutura base. Estas paredes poderão ser removidas e reedificadas de acordo com as pretensões de novas utilizações. Imaginem um edifício onde se encontravam apartamentos, passados 6 meses tem no mesmo piso ou pisos, um hotel instalado! Genial e talentoso, para a altura.
A Gaudi foi-lhe dada liberdade, liberdade essa consignada em contrato com os Milà. Esta orgânica arrojada e ambiciosa que fervia no arquitecto feriu os propósitos da família Milà, tendo havido uma tentativa gorada, por parte dos proprietários, em cortar os restantes honorários.
A Casa Milà afigura-se como um marco. Marco de uma loucura de um génio, que veio abrir novas portas e apontar novos caminhos para o design arquitectónico e para que o aproveitamento de espaços fosse visto de forma diferente.
A par, as técnicas construtivas Catalãs também foram anunciadas ao mundo numa altura onde não abundava a riqueza, passando pelo reaproveitamento dos materiais existentes.
Salvador Dali, um dos seus amigos, foi um dos primeiros a visitar a Casa Milà. E feliz ficou numa das fotos, com uma das inconfundíveis chaminés em pano de fundo.

23/04/08

Retrato do Artista quando Jovem - James Joyce (Dia do Livro)

A minha compra no dia do llivo. Mas não basta comprar, é preciso ler e para isso dizer: «Ai que prazer, não cumprir um dever, ter um livro para ler...». Fernando Pessoa.

02/04/08

Codex 632 - The Secret Identity of Christopher Columbus

Agora é que os americanos vão perceber quem foi Cristóvão Colombo, com José Rodrigues dos Santos a explicar que o homem nasceu na actual vila de Cuba, no Alentejo.
"Whem Thomas Noronha, a professor of history and an expert cryptographer...". Vão achar esta entrada muito familiar. Bom, não interessa, pode ser que acabe em filme lá por terras do Tio Sam.

19/03/08

Amor em Tempos de Cólera - Gabriel García Marquéz

Uma novela à Gabo agora em cinema. Uma novela que me lembrou Memórias das Minhas Putas Tristes e que nos conduz à inevitável conclusão, ou melhor, àquele lugar-comum de que nunca é tarde para amar e que esse nobre sentimento tudo vence e tudo conquista.
Os apreciadores já sabem que quando se pega numa novela de Garcia Marquéz a história é contada com arte e mestria, que encanta quem lê de princípio ao fim. Neste "Amor", a prosa recai sobre o tema da velhice e dos sentimentos que nessa fase florescem, tal como acontece na puberdade ou na fase adulta. Só que com a pequena grande diferença destes ainda se descobrirem sob a capa de um rosto envelhecido e com rugas. No entanto, tal não significa que não sejam inocentes ou verosímeis, sendo por vezes cruelmente desvalorizados.
Cartagena de Indias, cartas de amor, uma paixão inesgotável entre Florentino Ariza e Fermina Urbino, uma epidemia de cólera que varreu a região no final do séc. XIX e um universo cultural colombiano. São estes os elementos onde assenta esta história rica em ambientes latinos, que vem pela mão de Gabo tomar a forma de mais um romance universal que ajudou a cimentar o realismo fantástico - a síntese do cunho pessoal que Marquéz aplica à escrita.
Resta ver o que nos reserva o filme que Mike Newell realizou com o laureado Javier Bardem, Fernanda Montenegro e Catalino Sandino Moreno (Maria Full of Grace), entre muitos outros actores e actrizes.

As Benevolentes - Jonathan Littell

Escrever com minúcia sobre a crueldade e a violência humana ante o cenário do holocausto da segunda guerra mundial. É no fundo, disto que o livro trata e que eu já percebi na pequena incursão desta longa-metragem de 900 páginas. Haja tempo.
Quanto à opinião sobre o livro e a escrita, posso dizer que o homem "sabe da poda", utiliza bem o seu melhor na narrativa. Reconheço arte no seu ofício, aliada a uma entrega na investigação sobre a história do nazismo e de todo o período em que esteve ao serviço do III Reich. As suas políticas, as suas práticas de execução nos diversos países do leste europeu, contadas de uma forma desconcertante pela panóplia de recursos que o escritor possui. Vale a pena. Vale bem a pena descobrirmos mais uns episódios inéditos, entre tantos outros, do que o homem é capaz de fazer e que escondem por trás mais um punhado de acontecimentos inacreditáveis, hediondos.

07/03/08

Uma Carta para Garcia - Elbert Hubbard

Será como levar uma mensagem a Garcia.

Realmente a expressão não me era estranha e penso que também não o será a muita gente, no entanto nunca me dei ao trabalho de tentar entender aquilo que verdadeiramente escondia. Mas antes de ir ao seu significado, redescobri que se poderá avaliar a predisposição de uma pessoa para realizar uma determinada tarefa, só pelo tom em que esta retorque quando lhe é solicitada: “…será como levar uma mensagem a Garcia. ” Passo a aprofundar um pouco mais a pequena grande obra em apreço:
Numa noite, Elbert Hubbard em finais do séc. XIX, escreveu de uma assentada um pequeno texto que viria a ser tomado como fonte de inspiração e de incentivo por muitas pessoas e empresas. Tendo até exercido alguma influência no desenvolvimento de algumas sociedades. Estava-se em plena revolução industrial, numa altura que se levantavam as primeiras questões da produtividade com os consequentes conflitos laborais que rapidamente transformavam a matriz comportamental de qualquer sociedade. Consciente das alterações que estavam em curso, a sensibilidade de Elbert há muito que tinha colocado a sua mente em ebulição o suficiente para precipitar uma redacção intempestiva sobre as razões que levam um trabalhador a agir com maior ou menor dinamismo e que viriam a terreiro pela mão de um jornal. A ideia surgiu de uma conversa sobre os heróis da guerra travada em Cuba entre os EUA e Espanha, ao ser recordado o mensageiro Rowan que sem tossir nem mugir, atravessou em 3 semanas a ilha para entregar uma mensagem ao General Garcia. Parágrafo a parágrafo li-a deliciado, tal sapiente exortação. Tem uma escrita clara e requintada mas perigosamente mobilizadora.
O início é ilustrado com o célebre episódio da empresa a que Rowan se submete executar com audácia, diligência e sobretudo sem a questionar. «Mac Kinley deu a Rowan uma carta para ser entregue a Garcia. Rowan pegou na carta e nem sequer perguntou: “Onde é que ele está?”» O que quero sublinhar é o espírito de pessoas como Rowan com quem felizmente já tive e tenho a felicidade de trabalhar, pois delas sorvi um pouco do seu calibre. A minha filosofia de trabalho foi-se alterando à medida que fui aplicando no meu dia a dia este princípio e isso teve inevitáveis reflexos na minha pessoa e no ambiente que me envolve.
No final do texto identifiquei-me com o espírito da mensagem do autor, dirigi-me à fotocopiadora e tratei de o divulgar. Tomara que no nosso país à beira mar plantado (e com temperaturas máximas de Março a rondar os 22º), houvessem mais Rowan´s que agissem com empreendorismo, sem a tacanha contestação que muitos assola e sem o permanente descontentamento que outros enferma.

05/03/08

Tanto Que Eu Não Te disse - Marta Gautier

Romance de aprendizagem de relações. Viver, pensar, sentir, amargurar, recalcar e nada dizer. Não reagir. Não fazer notar àqueles que mais nos dizem o que mais merecem, para o bem ou para o mal. Sobretudo para o bem. E por vezes, o que fica por dizer cria grandes obstáculos nas nossas relações.
É sobre isto que Marta escreve, procurando fazer-nos refletir e mesmo mudar a nossa actuação. É um romance de aprendizagem com aplicação no relacionamento interpessoal - esse grande chavão.
A personagem é uma jovem mulher, que face à idade da autora somos levados a crer que a jovem retratada é ela própria. Talvez o seja, porém experiente psicóloga que é, pode este retrato dirigir-se para algum caso singular com que lidou.
Esta vê a sua vida escondida dos dias luminosos, enfiada na escuridão da sua casa e da sua alma, humedecida invariavelmente pelas lágrimas. A sua auto-estima foi deixada algures no passado. O amor próprio nunca floresceu, nunca exteriorizou o que tinha dentro de si à medida que o tempo passava na convivência de seus pais. Sentia e pensava, por tudo o que ficou por dizer, por todas as discussões que não teve, pela carência de afectos da qual julgou ter padecido. Mas, nunca os pais a deixaram de amar, simplesmente, e ela própria o constata, a educaram como souberam e como julgaram ser melhor. Impedida pela angústia, nunca conseguiu mandar para fora o que tanto a inquietava desde a infância, e só se revelou na idade adulta. Durante as sessões de terapia foi dando conta que culpava os pais pelo seu estado, o que a levou a ter um acto de coragem que exaltou o bem-estar consigo própria. Quando estava a fazer progressos, a aprender a amar o seu ego, a apreciar o dia a dia, a abrir a janela, a arejar o mofo e a sacudir o pó da casa e da sua alma, engravida, e aí, descobre a dificuldade que é ser mãe e conseguir educar uma filha sem que os seus próprios desejos interfiram.

28/02/08

O Triunfo dos Porcos

George Orwell sempre manifestou uma consciência política e uma visão muito fora do comum. Se no livro 1984, apresenta um mundo governado por ditaduras que chamaria alucinantes, uma ideia que já esteve mais afastada do nosso mundinho rectangular, em O Triunfo dos Porcos (Animal Farm) cria uma fábula mordaz de alcance incrível, com uma sociedade de animais, uma quinta, uma revolução..., grandes ideias..., às quais se seguem grandes mobilizações e consequentes acções.
E depois, depois chegam os políticos para moldarem o produto da revolução a seu bel-prazer, para acabar por fazer regressar tudo ao aspecto original. O poder, quando deixado para um grupo restrito, acabará sempre por cair no mesmo vazio. Será então verdade, a ideia central que não faz qualquer sentido participar em algo para mudar. No final ou se torna num dos seres que acabou de derrubar ou se acaba por cair na situação que se verificava anteriormente (Alguma coisa mudou para tudo ficar na mesma - Giuseppe Tomasi, in Il Gattopardo). Um livro verdadeiramente universal, aplicável a qualquer regime totalitarista...
Uma tirada que sintetiza esta fábula política: o idealismo traído pelo sabor do poder.
Transcrição da parte final:
«Não havia agora dúvidas sobre o que estava a acontecer às caras dos porcos. Os animais que estavam lá fora olhavam dos porcos para os homens, dos homens para os porcos e novamente dos porcos para os homens; mas já não era possível dizer quem era quem

Festa do Livro em Aveiro

"É a primeira Festa do Livro, uma iniciativa da Câmara de Aveiro e da distribuidora "Calendário das Letras", e está a decorrer numa tenda montada no Largo do Rossio até ao próximo dia 16 de Março. São 60 mil livros, desde infantis, juvenis, romances, técnicos, poesia e história, entre outros, com preços a variar entre um e mais de 10 euros, que podem ser adquiridos, todos os dias, entre as 11 e as 20 horas. Tratam-se de livros lançados no mercado há mais de 18 meses e que hoje raramente se encontram nas livrarias, já que as festas do Livro são dirigidas aos fundos editoriais mais antigos60 mil livros com preços a partir de um euro ao dispor dos visitantes." - Fonte J.N.

08/02/08

100 mil livros à venda na feira do livro no Mercado Ferreira Borges

Saldos até 24 de Fevereiro na feira do livro do Mercado Ferreira Borges no Porto, com descontos que variam entre os 30 e os 80% em livros descatalogados e edições recentes que já não têm lugar nos escaparates. Mais uma feira com o formato das 10 (ou 12) últimas que o antigo mercado tem recebido. Um segurança à porta, bancadas espalhadas pelo pavilhão carregadas de livros, muitas delas com promoções a 5€ cada 10 unidades que já não interessam nem aos que compram para compor as prateleiras lá de casa. Cartazes ao alto a separar por preço, num espaço cinzento, não aquecido e muito ventilado, nada propício a quem pretender fazer a breve leitura decisiva para a aquisição de uma obra. Aconselha-se um agasalho como um cachecol e uma protecção para as orelhas.

07/02/08

A Arte de Ser Português - Teixeira de Pascoaes

Era uma vez um Portugal com portugueses que Teixeira de Pascoaes viu, e no-lo mostrou pelo texto deste livro tal qual ele o observou, fundado na glória da sua história, reflectido pelas suas figuras maiores, pelos seus poetas, nas virtudes de ser português e nos seus defeitos, sintetizando que para sermos o Português que vira nesse projecto, era preciso arte.
Arte para nele se reconhecer a nossa raça, símbolo de uma pátria independente e distinta, cristalizada pelo nosso pulsar e pela nossa língua. Arte para mostrar o nosso carácter, fruto de uma herança e tradição que dos remotos povos ibéricos emergiu e se destacou desses demais, de onde nasceu uma pátria lusíada independente e criadora em vários domínios: direito, arte, literatura e ciências.
Na arte de ser português o escritor reproduz o nosso ser, faz o esboço do perfil do nosso carácter, descreve e sublinha os nossos traços mais importantes, aqueles que nos distinguem dos outros povos, e não o faz percorrendo somente as fronteiras do nosso território, conseguidas aos castelhanos e aos árabes por heróicos feitos. Fá-lo na medida de um grande português, sem artifícios e sem demagogias, com uma vontade e convicção naturais, enxugando a pena do poeta com a ânsia de passar para o lado de cá da barricada. Pascoaes destapou a nossa alma para que quem se dispuser a vê-la, possa (re)aprender a importância da nossa obra enquanto Portugueses, sobretudo a nossa expressão verbal que traduz em sons o que somos e o que sentimos, verbaliza o que nos vai no mais íntimo da raça e que noutras línguas não se consegue traduzir. Em particular, vem-me à lembrança a dita palavra da língua portuguesa: a Saudade, tão típica da sua alma e que dela faz parte, dividida pelo desejo e pela esperança.
Assim se revela a referida Alma Pátria, pelo cancioneiro popular, pelo lirismo de Camões imortalizado pelos Lusíadas, atravessando séculos até Garret e Herculano. Uma nação como a nossa não esgota a sua história, nem a sua alma se extingue na idade que marcou a sua juventude, aurora dum passado que nos é basilar e que demarcou o nosso espaço físico.
A sua génese identifica-se nos primórdios da península. Desde então as qualidades e virtudes foram despontando, e o expoente que classificou o génio lusíada estava ainda para surgir e atingir a sua máxima expressão científica, militar, religiosa, etc… na época dos descobrimentos ! Época renascentista louvada pelos Lusíadas de Camões, pelas obras do empreendimento exclusivo da nossa ciência e da arte da navegação posta em prática pelo espírito português, e pela audácia dos nossos marinheiros. Culminando em Alcácer Quibir e em D. Sebastião…
O autor, no desenvolvimento do seu raciocínio sobre a Alma Pátria, encaminha-nos para as suas noções de indivíduo e de pátria, de vida animal e vida superior, de perfeição e imperfeição, faz-nos reflectir sobre a lei suprema e as implicações da subjugação do indivíduo à pátria, ficando este também a ser pátria ascendendo em sacrifício ao espiritual. Esse sacrifício não se confinará ao colectivo de um campo de batalha. O amor familiar, o seu contributo como homem fraterno entre seus pares na comunidade e na profissão, cumprem os desígnios da lei suprema.
Tomamos o pulso a um conjunto de matérias que são abrangidas pelo poeta, com reflexões em campos como a história, filosofia, arte, paisagismo, religião, política e jurisprudência.
Pascoaes reconhece alicerces para a estrutura familiar, nas tradições do passado da humanidade, na vida municipal em obrigações comunitárias hierárquicas, nos 3 estados propostos de família rural, urbana e operária, e colhendo as virtudes dos antepassados estabelece uma analogia entre a família e a pátria, devendo constituir ela própria uma pequena pátria, ocupando um território familiar, criando assim ela também a sua própria raça. Ao Português tal culto é proposto para a manutenção da sua civilidade e disciplina.
Porém, nesse culto está implícita uma dose de religiosidade que moralmente ampara o indivíduo na sua ligação ao divino etéreo, e será o garante do cumprimento da lei suprema do sacrifício. Pascoaes até nesta vertente inova e recebe apoios, separando a velha igreja romana para criar uma nova à imagem da renascença portuguesa: a igreja Lusitana.
Surge então o cristianismo que é tradicional na concepção religiosa da família portuguesa e que como é sabido, é uma herança de longínqua proveniência desde a fundação da pátria por D. Afonso Henriques, tendo-se enraizado na nossa história pela criação de um lugar cativo da imagem de Jesus Cristo e da Sagrada família, tanto nos nossos templos e palácios, como nas nossas casas, sendo a «lareira o santuário com as imagens dos avós».
Aliás, algumas décadas depois de sair este livro, uma das páginas da nossa história mais recente o mostra, pela concepção que o estado novo tinha sobre a vida familiar e em sociedade, para os portugueses. Vida essa de princípios rurais e agrários, ligada à igreja católica, ideia com pouco arrojo, muito comedida, algo cinzenta e sem grandes apostas na inovação, pensando-se sempre na condição de neutralidade perante a guerra. Na altura, Franco, aqui ao lado, dizia exactamente isso de Salazar, e no entanto… E assim nos íamos mantendo como os meninos bem comportados da família europeia, com os mesmos brandos costumes, muito honestos aos olhos dos outros, mas pobres! Pobres em infra-estruturas e na cultura, que a felicidade ignorante fez o favor de estagnar. E os que despertavam desse estado letárgico, logo eram amordaçados… Bom, mas vamos deixar o estado novo e voltar a Pascoaes.
Encontro talvez a única discordância que me separa deste pensamento, na questão da religiosidade bucólica a braços com a ruralidade comungando com a natureza, inúmeras vezes referida, onde à qual dedica um sub-capítulo sob o título de paisagem. A visão populista nas constantes chamadas ao folclore nacional do cancioneiro popular, denota um olhar que não se vira para a modernidade, num período em que o país sofre mudanças políticas e sociais profundas com a instauração da República.
Mas mesmo assim, como compreendo Pascoaes por este resgatar o que considerava o mais representativo e glorioso do nosso passado. E como muitos outros poetas o fizeram! O passado serve sempre de fonte de inspiração para se construir um futuro, para que dentro de nós se refaça a seiva lusitana e que dela brotem a audácia e a perseverança num renovado génio português. E como já referi, o poeta, não o quis ser com esta exaltação literária devido às incursões no popular do cancioneiro e na simplicidade da vida rural de culto religioso. Ora, aqui, o poeta despe a sua pele para vestir uma outra e assim se misturar no povo, para ele próprio conhecer melhor o Portugal que no fundo apenas ele via ao ritmo dos sentimentos sangrados do seu coração.
Convirá que seja feita uma referência ao saudosismo de origem Sebastianista dorida e aventureira, que originou um movimento literário na primeira década do velho século. A revista “Águia” tornou-se no elemento nuclear e de difusão das ideias do grupo de poetas que nela escreviam, e o mentor, Pascoaes, reconhecia esse saudosismo como o motor da produção literária poética.
Mas aquilo que Portugal é, já o era em 1920 quando das primeiras publicação deste livro e até muito tempo antes. Um Portugal brando, de vil tristeza, mártir da inveja que sucedeu à cobiça, preocupado em manter a grandiosidade perdida, que não se afastou nem se aproximou daquilo que poderíamos ser e que é sublimado por este livro. São estes os defeitos que reunidos num outro sub-capítulo, o autor aponta como aqueles da Alma Pátria, rematando com o vício que actualmente é mais agitado como bandeira: a Imitação. A imitação de que os outros (aparentemente) farão de bom…
«…quanto a estas qualidades, são as próprias da raça que devemos cultivar. Não há maior erro que a pretendida substituição das qualidades próprias por aquelas que admiramos nos outros povos.».
Este Portugal que mostra a sua feição real nos dias que correram e que correm, não conheceu este livro, ignorou a nossa alma pátria porque não se confrontou com ela em todas as acções diárias materiais e espirituais, e cujas virtudes nos poderiam ter catapultado para o lugar onde Viriato, D. Afonso Henriques, Nuno Álvares, Vasco da Gama, Camões ou Fernando Pessoa se encontram.
Viremos então os olhos para o futuro pois como já vimos a Alma pátria existe em matéria e alma, e está alicerçada. Acreditemos pois, livres, saudosos e independentes.
(é muito bonito falar, não é?...)

A Princesa - D. H. Lawrence

A leitura desta história na forma como foi escrita por Lawrence, deixou-me insatisfeito. Notei que a genialidade com que o autor escreve não se resume àquela amostra de talento deste piqueno livro. Algo de Lawrence ficou por mostrar verdadeiramente quando lemos as vigorosas descrições e as narrações das insípidas aventuras de “A Princesa”.
A história é a que se segue numa pequena síntese: Mary Henrietta perdera a mãe em tenra idade, cresceu segundo a educação que seu pai lhe impregnara, moldando-lhe o carácter com a pureza da sua origem aristocrata, superior aos restantes seres os quais deveria ignorar. Princesa, como lhe chamava o pai, era a última da sua linhagem e os dois formavam o par perfeito. A sua pose virginal ao passear pela rua revelava também distinção, mas sobretudo indiferença com a populaça vulgar, a qual aos seus olhos eram gente de baixa condição, sem modos e grosseiros... Estas atitudes granjeavam repulsa a esse ser pequenino com ar angélico mas ajuizado.
Foi este o carácter construído na sua infância que iria constituir a estrutura moral inabalável para o resto da vida, até perder o pai e desprender-se desses laços que a iriam lançar no caminho da "vulgaridade" como tantas outras, à procura de um companheiro, um homem... Muitos conheceu, essencialmente ricos, artistas, pintores, judeus e outros, mas a chama não apareceu, até conhecer num rancho, Domingo Romero, um mexicano típico, moreno de cabelo liso preto, descendente de vaqueiros e com a mesma expressão esvaziada tal como a princesa... Com estas personagens começa a tomar forma a abordagem que caracteriza algumas das obras de D. H. Lawrence: a apresentação do feminino virginal, senhor do seu nariz, culta e incapaz de mostrar afecto, em confrontação ao masculino personificando o macho sequioso de volúpia, másculo a roçar o animal mas capaz de se render a paixões arrebatadoras numa enternecedora entrega.
Lawrence explora estes aspectos com mestria, expõe o melhor e o pior dos seus personagens levando-os desde o olhar cúmplice que tanto os aproxima como logo a seguir os afasta para os extremos do diâmetro do círculo que acabaram de formar, rompendo-o por vezes em insanos impulsos que trazem à flor da pele sentimentos extremados. Logo a seguir, eles próprios sentem alguma revolta por encontrarem em si, o que mais temiam que fosse exposto... Estes são os aspectos positivos que nos fazem valsar de mão em mão com o amor, o ódio, o desejo e a frigidez.
No entanto, outros aspectos já não me cativaram de igual forma, como a súbita e pouco trabalhada adaptação da princesa do meio social buguês da costa leste americana, expoente da civilização, ao meio rural de um rancho escasso em luxos e com os costumes que uma senhora fria abomina. É sempre difícil uma adaptação destas, sobretudo para "esta princesa". O final surge também algo inesperado, parco em ideias, demonstrando uma tentativa de subtileza na conclusão, que a meu ver, não foi conseguida. Esta obra, “A Princesa”, considero-a como o primeiro passo para uma outra “A Virgem e o Cigano” um dos maiores êxitos literários do escritor, onde este concerteza teve mais espaço para reflectir as suas ideias e qualidades, opondo a moral ao mundano – A Virgem vs O Cigano.

24/10/07

O Sétimo Selo, José Rodrigues dos Santos

Na oportunidade é que está o ganho”.
Esta é a fórmula que se aplica a José Rodrigues dos Santos. Significa que, consoante a actualidade do tema ou a lacuna na divulgação histórica, assim vai JRS debitando os seus romances e colocando Tomás Noronha nas rédeas dos acontecimentos.
De JRS li apenas o “Codex 632”, onde Tomás, perito em criptanálise e línguas antigas, é o personagem central. O mesmo Tomás cuja especialidade lhe dá entrada garantida em códigos e enigmas danbrownianos, é o protagonista de “A Fórmula de Deus”, um romance que calca a física, a cosmologia e a matemática, e vai agora até ao frio embrenhar-se na temática das mudanças climáticas, calcorreando a meteorologia, a geografia e a climatologia. Será certamente um multifacetado e versátil “Indiana Jones” dos nossos dias que teve de dar corda às sapatilhas, este Noronha.
O que reserva o próximo ano?
A que especialistas irá JRS bater à porta, que polémicas irá abordar?
Sucede que a piscadela de olho à Espanha e à Itália, e ao mercado da América Latina, implica um afastamento gradual do nosso cantinho nas histórias que JRS irá contar para o futuro. Implicará também um afastamento dos leitores nacionais, utilizadores de transportes públicos (e não só), os tais que fazem o grosso das vendas?
No entanto, não convém esquecer: romance, paixão, aventura, suspense e sexo, com pinceladas próprias, todos sob um manto de actualidade onde pulula a tecnologia. Ou então, de 3 em 3 anos, converter a urdidura num romance histórico que tape o buraco não preenchido pelos romancistas, sobre um capítulo da nossa história.
As referências a Michael Crichton e John Grisham estão aqui justificadas. Eis o techno-triller nacional.
Deixo a esse propósito, um link interessante sobre Michael Crichton e a novela "State of Fear".

21/10/07

O Sétimo Selo, José Rodrigues dos Santos

Eis o novo romance de José Rodrigues dos Santos. Segundo deduzi do prólogo distribuído pelo DN este sábado, trata-se de um thriller em redor de um tema central que está na ordem do dia: o aquecimento global e esgotamento das reservas petrolíferas. À semelhança de A Fórmula de Deus e de uma investigação profunda, surgem paralelamente as explicações científicas colhidas a partir de especialistas da área, recheando assim o conteúdo com uma informação que irá "deliciar" o leitor. Novamente cabe ao romance o papel de difusor do conhecimento, misturado-o com o prazer da leitura (para quem gosta do estilo de JRS, claro está).
Na oportunidade é que está o ganho, diz Carlhos Fiolhais, cientista da universidade de Coimbra. Depois da exploração do filão da Ilha das Trevas timorense, de com A Filha do Capitão ter preenchido a lacuna da falta de um romance português sobre as trincheiras de 1914-1918, do ovo de Colombo que foi o Codex 632 e da aventurosa invocação do nome de Deus na respectiva fórmula, eis que aí estão as alterações climáticas.
Na entrevista dada ao DN, penso que foi dada resposta a uma das questões com que sempre me interroguei, acerca do tempo disponível que JRS possuía para escrever todos os anos um romance de 600 páginas:
- Já explicou que não se recusa cumprir horários, respeitando aqueles que lhe impôem o trabalho e as chefias. Conseguiria escrever um livro de seis em seis meses com o horário de um jornalista "normal" - ou mesmo com o horário que tinha quando era director de informação?
- Não só conseguia, como consegui. A Filha do Capitão, o meu mais volumoso romance, foi pesquisado e escrito integralmente quando eu era director de informação.
- Cita, no final do livro, mais de uma dezena de volumes consultados. Como consegue conciliar o trabalho, nomeadamente a apresentação no Telejornal e as aulas dadas na faculdade, com uma pesquisa tão promenorizada e a produção de um livro por ano?
- Trabalho muito rápido. Escrevo profissionalmente desde os dezassete anos e é normal para mim redigir dez páginas num único dia. Quanto à pesquisa, ela resulta sem dúvida do meu treino académico.
- Diz que pesquisa e escreve muito rapidamente e até já chegou a redigir 20 páginas num dia, e que se não fosse preguiçoso poderia escrever dois romances por ano. Não sente a necessidade de rever, corrigir, desfazer e voltar a escrever mil vezes antes de publicar?
- Claro que sim. Aliás devo ter lido O Sétimo Selo umas vinte vezes, sempre a corrigir, a cortar e a acrescentar, até me dar por satisfeito.

18/10/07

Rio das Flores, Miguel Sousa Tavares

Ora aí está: o tão aguardado novo romance de Miguel Sousa Tavares - Rio das Flores.
De facto, esta época da rentrée está ao rubro. Ontem,
Eduardo Pitta, falava de engarrafamentos. Lançamentos para aqui e apresentações para acolá. Gonçalo M. Tavares ganha prémio Portugal Telecom, Anne Enright leva o Man Booker Prize 2007, e Doris Lessing ao chegar das compras dá conta que tinha ganho o Nobel.
Ficaria feliz também, se me caíssem do céu os 29,00€ para comprar este novo livro de M.S.T., onde constam 632 páginas e uma capa com foto bicolor pouco apelativa, mas com ilustração significativa de uma das paisagens onde certamente decorre o romance: Brasil, a que se juntam Espanha e Portugal.
A primeira tiragem ultrapassa os 100.000 exemplares e só lhe vamos por a vista em cima no dia 29. Um pouco arriscado, tendo em conta a experiência com Equador ao ter apresentado na primeira edição alguns erros, sobretudo os históricos. Mas, pronto, "Errare humanum est" e errando aprende-se muito. Como consequência, M.S.T. já deve ter consolidado a sua faceta de romancista.
Segue-se a breve trecho, José Rodrigues dos Santos com novo livro (mais um de 600 e tal páginas). Conclui-se que os portugueses gostam de longas novelas.

15/10/07

Esteiros, Soeiro Pereira Gomes

Há obras imortais, que definem ´per si´ a excelência do autor. Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, é disso exemplo, com publicação em 1941 e ilustração de Álvaro Cunhal.
Foi escrita num estilo realista – típico no autor - que põe a nu a condição social precária de um grupo de gaiatos ribatejanos, sem quaisquer dramatismos e sem qualquer manto que escamoteie a vida cruel de uma educação sem escola e de uma adolescência de árduo labor, cuja precisão impunha nos telhais e nos Esteiros do Tejo.
Denuncia, sem o querer, uma sociedade atroz, de costas voltadas para um povo que subsistia, como classe proletária, à qual esses rapazes reagiam com as armas que lhes estavam à mão, e que lhes alimentava a astúcia na mesma medida que a cólera; alguns estavam conscientes disso, contudo impotentes - a corrente da vida era tão forte como a do rio que segue somente num sentido.
Esta é com certeza uma história entre muitas outras, é a história contada da realidade de muitos que sobreviveram e pereceram aos Esteiros do rio e à constante agressão de uma sociedade sem dó e com uma autoridade senhorial.
Trata-se portanto, de um retrato pungente, simples como eram aquelas vidas, que os ia vencendo, fosse no rio, fosse na fábrica grande ou nos telhais do estio. Não há ironias pífias nem inócuas, truques ou grandes artimanhas narrativas. Contudo, foi marcada por um dos mecnismos mais sombrios da 2.ª república, e para que este actuasse bastou retratar o Tejo tal como ele era e a vida das suas gentes, para que ceifassem com a censura, a obra ao nascer, como quem manda por terra uma seara que cresce do chão, chão que gente humilde pisava. Repito indignado. Como se não bastasse o destino cruel e a fome dos miúdos, tinham que vir com a censura do estado novo, calar a voz de quem apenas com mérito literário, queria falar com o resto do mundo sobre os Esteiros do Ribatejo.
Hoje em dia, este livro figura na lista dos recomendados para o secundário, nota qualitativa da narrativa ímpar do realismo do autor. Os brilhantes diálogos entre os miúdos são pérolas literárias do neo-realismo português que me fazem lembrar a “Gândara” de Carlos de Oliveira; repescam modos de falar antigos, ditongos e calão desaparecido, costumes e gestos típicos da região na época, aqui reavivados e imortalizados.

Excertos:
«Maria do Bote abriu a porta, e tudo em casa lhe pareceu mais sombrio e nu. Apenas, sobre a cómoda carunchosa, o despertador alardeava brilho, mantinha a mesma cadência das horas que não vivia. A dona olhou-o, melancólica, como a um traste inútil; depois, em súbita resolução, pô-lo debaixo do xaile, e dirigiu-se ao escritório do Rodrigues.À entrada ainda hesitou. Mas o penhorista chegou-se logo com modos animosos.
- Faz favor de entrar. Um seu criado, minha senhora.-E esfregava, uma na outra, as mãos peganhentas. - Sr. Rodrigues. Eu trago aqui...»
pág. 126.
«A manhã é ainda um pressentimento, mas já no quartel o despertador anunciara o dia. Os valadores deixaram a tarimba, que não acalenta fadigas; tactearam as pás, ao canto; e, depois de enganarem as bocas com naco de pão mais duro que a tarimba, meteram-se ao esteiro.
- Vamos a isto antes que a maré suba.As pernas resvalaram no lodo até aos joelhos, e a humidade arrepiou-as.»
pág. 137.

28/09/07

Paris é Uma festa

Paris, primeiro avanço.

A pesquisar se vai entendendo o porquê das coisas, peça a peça. Em 1955, o jornalista Garcia Marquez, foi enviado à Europa pelo jornal colombiano El Espectador. No ano seguinte, com o jornal fechado pelo governo, exila-se em Paris e experimenta um período com muitos problemas financeiros. Foram tempos difíceis, onde ensaiou e amargou a vida do artista sem rendas, dependendo apenas de "milagres quotidianos" que lhe garantiam alguns francos, mas que lhe fomentaram uma das fases mais produtivas enquanto escritor. Saem para o papel Os funerais da Mamã Grande e
Ninguém Escreve ao Coronel. Este último, escrito e reescrito inúmeras vezes durante esse ano na cidade luz, relata uma história latino-americana de um Coronel reformado e de sua mulher asmática, que religiosamente, todas as sextas-feiras, se apresenta nos correios expectando a chegada da prometida reforma. Enquanto a dita não passa de promessa, percorremos uma fantástica viagem literária de peripécias que tentam afastar a miséria e dar algum sentido à vida. Deve ter sido o que o desafortunado colombiano passou nesse ano em Paris, como contou acerca dos dias a fio em que descia as mesmas escadas até ao correio aguardando ansiosamente a correspondência de Bogotá. O mesmo ano em que Marquéz e a mulher mediaram as crises conjugais do casal Vargas Llosa e que lhe valeram, tempos depois, um valente soco em cheio no olho esquerdo, do colega peruano.
Dos tempos de Paris o resultado quedou-se nesse brilhante retrato da velhice e da burocracia sul-americana: Ninguém Escreve ao Coronel, adaptado também ao cinema em 1999, por Arturo Ripstein.

Isto a propósito da influência que a capital francesa e a sua cultura exerceu sobre mais um escritor, entre tantos outros estrangeiros, Eça, Hemingway ou Vila-Matas...

Só passei uns dias em Paris, em 1994, mas após essa estadia já viajei até aos seus bairros e às margens do Sena por várias vezes. Ainda há pouco aí fui pelas páginas do Fio de navalha de Maughan ou pelas curtas metragens de Paris Je T´Aime. Vamos ver que dias me esperam. Molhados, seguramente. Mas, até lá, segue-se Paris Nunca Se Acaba de Henrique Vila-Matas nos anos setenta.

À Nuit Blanche de Paris, vou falhá-la por um dia, quem diria. Semelhante àquela que se realizou em Madrid, além do mais até por ser a noite original conceptual, a Nuit Blanche é uma noite em que não se dorme por esta oferecer inúmeros espectáculos de rua e por ter os museus e outros estabelecimentos públicos abertos, para que os naturais, e eventuais turistas, possam desfrutar destas actividades, eventos e exposições artísticas de forma contínua e grátis. Pede-se somente a São Pedro que não chova. Nem é preciso sol, basta o bom tempo.