09/06/07

Equador - é com a dor

Por ser um romance que Vasco Pulido Valente considerou sobre sexo e exotismo, deixaria de se ler um livro que revisita tão bem a nossa história por alturas da morte de D. Carlos I, num cenário como a ilha de S. Tomé com os últimos resquícios ainda visíveis, da exploração negra nas roças de cacau?
Não me parece. Até porque já o li e na altura pareceu-me que ia muito mais longe.
Além disso, se assim fosse, ninguém ligava aos filmes do espião criado por sir Ian Fleming.

Um livro de longo alcance como é este Equador de Miguel Sousa Tavares, não torna fácil a tarefa de uma breve resenha, tantos são os episódios e os cenários que ainda trago na memória.
O romance tem início em 1905, com o encontro entre Luís Bernardo e El-Rei D. Carlos, sendo-lhe proposto o lugar de governador da colónia de S. Tomé e Príncipe, cuja missão seria a de persuadir um cônsul inglês da improvável utilização de mão-de-obra escrava na produção de cacau, sob pena dos britânicos boicotarem a sua importação dando início à previsível derrocada do império colonial português, num período de instabilidade política e social que dividia o país, podendo precipitar a queda da monarquia.
Patriótico desígnio ao qual seria difícil resistir a qualquer um que se achasse habilitado, como era o caso do advogado Luís Bernardo, solteiro de amores e profissões, acabado de vender a sua empresa de transportes marítimos e de não ter agarrado novamente uma acesa paixão.
Nada o impedia. Moralmente também não podia negar o desafio lançado pelo Rei, e o país borbulhava miséria social e cultural. A altura e o destino tornavam-se perfeitos, só lamentava os amigos.
Pouco a pouco, sob várias facetas, identifiquei-me estranhamente com o personagem principal do enredo, do qual guardo uma agradável recordação, ou melhor, uma excelente recordação. Dos últimos romances que li, este foi aquele que mais tempo conseguiu manter aquele travo amargo na memória, prolongando-o alguns dias após o final, mas no fundo, depois de compreender a decisão final de Luís Bernardo embebido num turbilhão de emoções, senti uma genuína amizade por aquele homem, venturoso e inteligente, mas só. Só, como às vezes me sinto, mesmo no meio de um belo país em desafogo de espaços, rodeado de estranhos e amigos, talvez mais dos primeiros. Acompanhamos então o novo governador por terras de S. Tomé, conhecemos de perto as roças de cacau, dezenas a retalhar as duas pequenas ilhas, os seus donos, os encarregados e os negros, imaginamos as belas praias com coqueiros onde Luís com despudor nadava, e convivemos nas lides diárias governativas que acabam ao fim da noite na varanda sobre o atlântico, saboreando um cognac servido pelo fiel Sebastião.
A estrutura do romance é sólida e bem balanceada, dividindo o tempo de forma equilibrada por todos os episódios. A meio do mesmo, para surpresa minha, somos levados a visitar a Índia nos áureos tempos do império britânico, de onde orgulhosamente ferido provinha o cônsul inglês e a sua bela e sensual esposa.
Todas as personagens são bem delineadas, o conhecimento sobre cada uma delas é o suficiente para concebermos a sua importância na história. Até os próprios nomes ajudam a diferenciá-las, mal esse do qual padecem alguns romances.
A monarquia de D. Carlos está muito bem retratada, os diálogos precedidos das habituais caçadas em Vila Viçosa demonstram a intimidade do núcleo da última nobreza que governou o país. D. Carlos é-nos descrito de forma verosímil, os relatos da sua pessoa são iluminados por vivos discursos que o autor introduz na narrativa, denunciando a lucidez e a preocupação do soberano acerca das políticas estrategicamente desenvolvidas, com especial atenção para a ameaça britânica ao boicote do cacau sãotomense. A vida nas ilhas prosseguia, por vezes era animada com visitas de amigos lisboetas, mas a rotina teimava em voltar, até que chegou o esperado cônsul, iniciando Luís Bernardo a tarefa de colocar visível aos olhos do inglês a inexistência de escravatura, o que colocou à prova as suas convicções liberais e humanistas nas quais o rei depositou a confiança necessária à escolha do cargo. Luís via-se confrontado com a sua consciência e com os hábitos seculares dos roceiros, mesmo regulados com as recentes leis coloniais que atribuíam de forma pioneira, os primeiros direitos aos serviçais pelos contratos mútuos de trabalho. Antevêem-se então as lutas interiores, resultantes do embate dos princípios de um indivíduo que toda a vida convictamente defendeu, à rudeza de uma sociedade longe da civilização e isolada naquele ermo, sob a tórrida linha do equador, só, e à mercê dos desejos de satisfação de um homem...
Um aconselhável romance histórico, com um cheirinho a Eça, no qual obviamente se foi inspirar.