28/08/07

Persuasão, Jane Austen

As obras de Jane Austen nunca foram favoritas dos portugueses, na sua generalidade. Por cá, pouco se fala desta escritora, e quando tal acontece é repercussão da adaptação de uma novela sua ao cinema ou à tv, à qual se segue a inevitável reedição. Assim sucedeu em 2005 com Orgulho e Preconceito. O mesmo se passou com Emma em 1995, e há uns anos com a série de tv onde Colin Firth interpreta Mr. Darcy.
No seu país, Jane Austen é muito amada. Os britânicos elegeram Orgulho e Preconceito como o melhor romance clássico de sempre, entre vários autores internacionais. No nosso país, não há escola de inglês ou qualquer outro local onde se leccione a língua, sem que nas prateleiras não se exiba uma lombada com esse título. Quem for ao IMDB e demandar por Pride and Prejudice leva em cima com pelo menos 10 filmes (e o meu monitor é de 17´´). Até com o assunto brincam, criando coisas como Bride & Prejudice ou Pride against Prejudice, provavelmente sátiras ao retrato que a obra faz.
No livro Persuasão, incluído na colecção de Livros de Bolso DN, reencontrei a escrita de Austen, coesa, impecável, estóica, num quadro da época pré-victoriana do império. Assim foi, com um agrado de altos e baixos, pois faço parte da maioria dos portugueses.
O seu estilo pode resumir-se à candura e à inocência, onde são trabalhadas personagens bem delineadas e consistentes, embora um pouco estáticas. Apesar disso, os enredos estabelecem uma empatia pela deliciosa observação que fazem do meio, notando-se alguma ironia e um afinco invulgares. Esse afinco, por vezes alonga-se à exaustão em diálogos que podem maçar consoante o estado de espírito do leitor, por insistirem na evocação de valores então instituídos como a importância do património, da casta, do orgulho da família ou da dignidade de um estilo de vida confortável com a aparência à vista do público…; a evocação do que é apropriado ou não, etc,..., como sucede de forma enfadonha em Persuasão.
Conquanto, tais diálogos dão ares de fidelidade àquela realidade, configurando uma crítica que espelha em ambientes sociais, uma cultura de aparências e de ostentação, e que mostra nos ambientes domésticos como a escritora viveu na intimidade famíliar, decerto não muito diferente das demais.
Esta novela não foge à regra. Os elementos quase que permanecem de umas para as outras. Aqui, o centro é Anne Elliot e suas duas irmãs, numa família em que o pai, Sir Walter Elliot (nome mais "british" não me ocorreria), viúvo entretanto, é um orgulhoso e vaidoso homem, cuja preocupação com a aparência aos olhos dos outros fora, desde sempre, o móbil do seu modo de agir. A irmã menor, Mary, já se encontra casada, enquanto Elizabeth, a maior, mantém-se solteira tal como Anne. Porém, a condição de Elizabeth justifica-se por um carácter igual ao do pai, muito selectivo, enquanto a de Anne é angustiante ao perceber-se que, na altura certa, podia ter desposado com Frederick Wentworth, um modesto rapaz. O impedimento teve origem nas pretensões paternais que não viam nele o partido ideal. Anne também não tinha voto nas opções de vida que a si dissessem respeito, o que a diminuía e a tornava fraca de carácter. Por si só, não conseguiu resistir à influência da família, e por isso não fez valer as suas convicções, o que contribuiu de forma decisiva a persuasão que Lady Russell exercia sobre si, passando a viver alheada do seu amor numa vida casta, vendo o tempo e a juventude esvaírem-se sem os poder reaver.
Oito anos volvidos, tudo é despertado quando, ao rever Wentworth, se sente traída pelas emoções, julgando que o tempo tinha dissipado o que por ele nutria. Mas não. A centelha agitou-lhe de novo o coração por aquele homem ainda disponível, e agora com fortuna apreciável. Não obstante, este faz notar que transportava consigo um sentimento de injustiça e de desinteresse num reatamento.
Ou seja, estava noutra, e mostrou-se frio e distante.
A outrora filha ingénua na senda das moças casadoiras, reconhece então quão errada esteve. A lucidez adquirida nos anos castos abre-lhe o caminho para a determinação e a sensatez que sempre possuiu...

Nos seus romances, Jane Austen disseca com notável talento, incisão e recortes irónicos, os tiques humanos dos estereótipos britânicos oitocentistas, expondo o irrisório cerimonioso dos comportamentos, que moldavam, por vezes, feitios detestáveis e criaturas insolentes. Essas abordagens são pequenas pedradas no charco de uma sociedade que só olhava para o umbigo e que valorizava demasiado o status social e o artifício subjacente.
Seja lá como for, certo é que os snobs imperialistas marcaram uma era que foi determinante para a expansão de um império que conheceu os 4 cantos do mundo, e cuja herança mantém o centro numa ilha onde floresce uma economia sólida e uma cultura de influência.
Em Persuasão, muito semelhante a Orgulho e Preconceito, viajamos por esse tempo glorioso, dentro do mundo que Jane Austen tão bem recria, conduzindo-nos às evidências atrás referidas e a mais uma séria ilação, no caso, sobre o benefício que cada um pode colher das persuasões, sobretudo as de índole amiga que instalam uma espécie de conforto com a consequente desobrigação de esgotarmos a própria capacidade de reflexão.
Prefiro contudo, Orgulho e Preconceito pelas virtudes da escrita já referidas e pela frescura, reflexo da idade em que Austen o escreveu, muito mais cedo que esta história de Anne Elliot – o seu último romance. Classif.:[14/20]