02/05/07

Era Bom Que Trocássemos Algumas Ideias Sobre O Assunto

“que significa ser comunista, hoje?”

Esta é a pergunta com que o livro termina e que me largou assim, em reflexão (a mim e aos puristas comunistas, sobretudo). Qual é a finalidade do comunismo em finais do séc.XX, época em que Mário de Carvalho publicou este livro?

Relexões à parte, se me fosse sugerida esta leitura para momentos de boa disposição, eu não acreditaria nas gargalhadas que iria dar com a história de Joel Strosse na fase mais cinzenta da sua vida – o Outono da existência -, durante a qual sismou que tinha de entrar para o Partido Comunista Português!

Strosse, ou melhor o Dr. Joel Strosse, funcionário da fundação Helmut Tchang Gomes, por dá cá aquela palha, num período existencial mais frágil, com o filho na cadeia e com uma despromoção profissional inesperada, depois de reencontrar Jorge Matos – antigo colega de faculdade -, durante as suas férias de verão na Costa de Caparica, resolveu que devia acudir ao cenário político, à conjuntura do país, à crise ideológica, à inércia do partido e a outras coisas que tais…, e a melhor maneira que se propôs fazê-lo – pois já andava com ela fisgada -, seria por via da adesão ao PCP com a ajuda de Jorge, agora caído do céu da “Caparica”.
O colega, reformado e divorciado, já desabituado das lides políticas, ficou no mínimo alvoraçado com a súbita e estranha vontade de Joel. Todavia, acabou por perceber que toda aquela mobilização era fruto da leitura de alguns autores soviéticos – desconhecidos por completo da grande maioria - que estão na raiz do pensamento comunista…

Este é o cenário que rodeia o tema principal do romance. O resto anda em torno destes dois personagens: os "habituées" do partido, alguns exibindo evidentes sinais burgueses, a secretária do comité e os seus usuais tiques de remate de conversa: “Era Bom Que Trocássemos Algumas Ideias Sobre o Assunto”, e uma habilidosa aspirante a jornalista – Eduarda Galvão -, que consegue paulatinamente, com as artes e manhas pessoais, auto promover-se de emprego em emprego.

A escrita de Mário de Carvalho, mordaz, cínica e extremamente bem-humorada, faz uma fina caricatura às relações humanas de conveniência, esvaziadas de conteúdo, aos velhos cabecilhas dos partidos que aí se mantêm pela longevidade, às ideologias que teimam em persistir nas suas mentes, à meia-idade bem instalada nestes núcleos que só levanta os braços nas tertúlias intelectuais bem regadas…

O caso da jornalista espelha com subtileza, algumas “aves-raras” (que de raro já têm pouco) do nosso jornalismo nacional, com incidência no lisboeta e que se podem transpor para qualquer actividade. A moça, aliando os parcos atributos físicos à esperteza que os vencedores (temporários) possuem, consegue esconder a sua espantosa incompetência e projectar a imagem de uma talentosa profissional, na companhia dos directores de revistas e outros que tais…

O final deixa no ar a dita pergunta em perfeito desafio, simples e directo. Deixa também exposta ao ridículo, a verticalidade política de Strosse disposto a uma actuação séria, ao acabar por ver o seu ingresso recusado. Os outros, os do partido, continuaram a arrastar-se num ciclo repetitivo de procedimentos absurdos, de prácticas caducas assentes em decisões pejadas de uma hipocrisia cega...

"Em suma, trata-se sem dúvida, de um recado para os núcleos duros dos partidos mais irredutíveis na sua doutrina, e num leque mais alargado, para a classe política do país. E se quiserem (eu por mim quero) uma crítica à ascensão de certos profissionais, sejam eles da comunicação social ou não…, e de quem no percurso lhes deita a mão, ou as duas…

Extracto:
“E ei-los assim a altercar a travessia do Sado, alheados dos golfinhos, a caminho do seu primeiro dia de férias, como sempre, na Costa da Caparica, em Santo António, num rés-do-chão que arrendavam há anos a uma velha rabugenta, proprietária de muitos gatos, cujo odor continuava a impregnar a alcatifa, ainda que no Verão estivessem carinhosamente recolhidos noutro lugar qualquer, para dar lugar a veraneantes.E, por ora, ponto final.
Joel Strosse tinha agarrado numa revista francesa, Ça Ira! E procurava concentrar-se num artigo intitulado “La gauche post-moderne, une déconstruction em marche?”, mas não conseguia passar do primeiro parágrafo. Era à tarde, cirandavam moscas em de permeio, umas melgas franco-atiradoras, prontas a atacar pela calada da noite, com aquele ruído característico da Fórmula 1, mais irritante que as alergias da matadura.
(…) pela janela gradeada via passar os veraneantes que regressavam da praia, dobrados ao peso dos guarda-sóis, basto enfadados , num carreiro sem fim. Pareciam zombies, de carnadura flácida, jeito mortiço e olhar vazio. Esta época obriga as pessoas a ir para a praia, a aturar a incomodidade de areias peganhentas, águas geladas, golpes de vento, bafos de multidão, peixes venenosos, miúdos turbulentos, sal na pele, transpiração, queimaduras, insolações, chatices, para confirmar que as práticas rituais só são válidas com algum desconforto. Há que prestar uma contrapartida pela conformação ao social. Está estabelecido pelas leis férreas do planeta.
(…) Cremilde, sentada num sofá estampado de flores, cujos castanhos e cinzentos não se sabia bem se eram obra do artista desenhador ou do uso continuado, ia folheando a Elle e perorando destarte:─ Vem aqui que as varizes não têm cura. A operação pode aliviar um bocado mas cura é que não há. É um médico que diz. Traz fotografia e tudo.Joel chegou-se à janela com o intuito de baixar a gelosia, tarefa árdua, científica e complicada, com aqueles fios todos num emaranhamento marujo.(...)As ruas ficavam cheias de gente, (...) os contentores transbordavam de lixo (...). Ainda por cima, havia bichas no supermercado e o ambiente estava impregnado por fumos de churrasco de frango dos restaurantes improvisados, geralmente governados por bigodaças imundos, com barretes às três pancadas, muito refractários às inspecções dasactividades económicas."

Mário de Carvalho, Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, ed Caminho, 1995, pp. 42-45

9 comentários:

AM disse...

já li há um bom par de anos... e adorei

ah, e fique com vontade de reler... :)

V.F. disse...

É um livro extraordinário. De uma subtil ironia que vale a pena reler.

É o retrato de muita gente, eu inclusivé...
nalguns aspectos, claro.

Anónimo disse...

Mário de Carvalho?
Que preciosidade.

ZT

V.F. disse...

Porquê, achas que há poucos como ele?
:)

Anónimo disse...

´O que será a esquerda, hoje em dia?
Serão os valores republicanos, do laicismo, dos direitos de minorias e da defesa acirrada de um sector público, passando pela soberania popular e pela recusa do sistema económico liberal?

Então, se for assim, já há cá disso, no PS e até no PSD.
Que diferença oferece o PCP, digna de afirmação pública, para além da recusa do modelo liberal de organização social e económica?

O PCP defende sempre as mais amplas liberdades, como modelo para todos. Porém, quando se lhe mostra o panorama mundial, dos últimos cinquenta anos, não há resposta coerente para o pacto germano-soviético em 1939; para o apoio expresso ao estalinismo; para o apoio expresso à invasão da Hungria em 1956, pelo exército soviético; para o apoio expresso à repressão em Praga, em 1968, apesar do Maio de Paris. Para o deslize do apoio aos reaccionários contra Ieltsin, no golpe frustrado na URSS.
Onde temos hoje, no mundo, comunismo à PCP? Na Coreia do Norte? Um país fechado sobre si mesmo, com a mais baixa taxa de esperança de vida, onde se morre de fome. Na China? Um comunismo de pacotilha para assegurar a mão de ferro sobre a produção em cadeia do ultra liberalismo explorador do homem pelo homem, como nunca se viu em lado algum. Em Cuba? Deixem-nos rir, com Ibrahim Ferrer embasbacado na quinta avenida de Nova Iorque.

Que resta então da bandeira ideológica do PCP? O combate ao liberalismo globalizante?

Está bem, pode ser. É uma perspectiva de oposição a algo que a direita defende. Chegará isso para definir a esquerda? Não chega. A social democracia faz o mesmo, em certa medida e em Portugal já temos dois partidos social-democratas: o PS e o PSD. Serão esses partidos, a direita que o PCP combate, como oposição de esquerda que pretende ser, ou tenta ir mais além e convencer o povo de que o ideário comunista quase centenário, continua válido? Não é inteiramente clara, a proposta do PCP, et pour cause. O povo já não vai em loas, porque a informação circula e sabe-se hoje mais do que há trinta anos. Mesmo com toda a propaganda notável e avassaladora do PCP, ao longo destes decénios, ao ponto de ter marcado a linguagem corrente, vincando um omnipresente antifascismo como frente de combate a um falso fascismo, continua a não convencer mais do que um dígito na contagem de votos percentuais.
O PCP recusou sempre um aggiornamento e o desaparecimento da foice e do martelo. Em França, Itália e Espanha, os PC´s anularam-se e misturaram-se na social democracia de tendência mais puxada à esquerda.
O PCP resistiu sempre porque tem a seu favor a linguagem política que sempre dominou e conseguiu impor nos media, desde os anos setenta. O PCP condicionou durante anos a fio o pensamento político em Portugal de modo a não ser possível uma outra linguagem que não a de esquerda, em todos os sectores de media e culturais. Ainda hoje é assim.
Por isso será em vão que se poderá esperar um reconhecimento público de erros e malefícios à humanidade. A luta continua sempre. “25 de Abril sempre; fascismo nunca mais!”
Inútil a demonstração de que se o nazismo está associado aos campos de concentração e extermínio, o comunismo está estreitamente ligado aos gulags.
Inútil a demonstração de que a liberdade de expressão, de informação, de reunião, de associação, ou seja as mais amplas liberdades, sempre foram um mito, nos regimes comunistas. Inútil a demonstração dos factos sobre a repressão extremamente violenta aos “fascistas”, em nome do antifascismo definido pelo comité central. Inútil a demonstração de que os regimes comunistas foram extremamente mais eficazes na repressão política, do que os regimes ditatoriais da Europa do sul.
Nada disto conta, porque os antifascistas, por cá, são os heróis do tempo que passou. Com o apoio expresso daqueles que lhes conquistam os votos…
O protesto do PCP, por causa do programa, é patético, porque a esquerda que sempre aí residiu, mudou de casa.
Aburguesou-se, voilà.´

José, na Grande Loja do Queijo Limiano

Eva Lima disse...

Depois de vários anos sem ler Mário de Carvalho, tropecei neste livro em Janeiro. Foi a melhor maneira de começar 2007. Diverti-me e descobri geniais figuras de estilo, por ex. "ensovacou o 'Público'". Fez-me ter uma vontade enorme de ler (outra vez) Vázquez Montalbán (ainda não encontrei nenhum livro em Viseu, vou ter que encomendar).

V.F. disse...

M. de Carvalho, faz um retrato hilariante e bem disposto, aqui desta "choldra". Já arranjei autor para momentos de boa disposição!

Quanto a Vázquez Montalbán, só conheço de nome. Parece ter uma visão mais universalista. Vou investigar...

Eva Lima disse...

Quanto a Montalbán, se me permites um conselho, começa pelos policiais, do inspector Carvalho. Do melhor que há para ler num fim de semana descontraído. Muito bem escrito, humor inteligente e caustico, despe a sociedade dos finais do séc XX de todas as formas.

Menina TAAG disse...

Também estou a ler esta obra para Literatura. achei que poderia ser um livro interessante e mando grandes gargalhadas com as criticas que estão presentes na historia. =P