07/02/08

A Arte de Ser Português - Teixeira de Pascoaes

Era uma vez um Portugal com portugueses que Teixeira de Pascoaes viu, e no-lo mostrou pelo texto deste livro tal qual ele o observou, fundado na glória da sua história, reflectido pelas suas figuras maiores, pelos seus poetas, nas virtudes de ser português e nos seus defeitos, sintetizando que para sermos o Português que vira nesse projecto, era preciso arte.
Arte para nele se reconhecer a nossa raça, símbolo de uma pátria independente e distinta, cristalizada pelo nosso pulsar e pela nossa língua. Arte para mostrar o nosso carácter, fruto de uma herança e tradição que dos remotos povos ibéricos emergiu e se destacou desses demais, de onde nasceu uma pátria lusíada independente e criadora em vários domínios: direito, arte, literatura e ciências.
Na arte de ser português o escritor reproduz o nosso ser, faz o esboço do perfil do nosso carácter, descreve e sublinha os nossos traços mais importantes, aqueles que nos distinguem dos outros povos, e não o faz percorrendo somente as fronteiras do nosso território, conseguidas aos castelhanos e aos árabes por heróicos feitos. Fá-lo na medida de um grande português, sem artifícios e sem demagogias, com uma vontade e convicção naturais, enxugando a pena do poeta com a ânsia de passar para o lado de cá da barricada. Pascoaes destapou a nossa alma para que quem se dispuser a vê-la, possa (re)aprender a importância da nossa obra enquanto Portugueses, sobretudo a nossa expressão verbal que traduz em sons o que somos e o que sentimos, verbaliza o que nos vai no mais íntimo da raça e que noutras línguas não se consegue traduzir. Em particular, vem-me à lembrança a dita palavra da língua portuguesa: a Saudade, tão típica da sua alma e que dela faz parte, dividida pelo desejo e pela esperança.
Assim se revela a referida Alma Pátria, pelo cancioneiro popular, pelo lirismo de Camões imortalizado pelos Lusíadas, atravessando séculos até Garret e Herculano. Uma nação como a nossa não esgota a sua história, nem a sua alma se extingue na idade que marcou a sua juventude, aurora dum passado que nos é basilar e que demarcou o nosso espaço físico.
A sua génese identifica-se nos primórdios da península. Desde então as qualidades e virtudes foram despontando, e o expoente que classificou o génio lusíada estava ainda para surgir e atingir a sua máxima expressão científica, militar, religiosa, etc… na época dos descobrimentos ! Época renascentista louvada pelos Lusíadas de Camões, pelas obras do empreendimento exclusivo da nossa ciência e da arte da navegação posta em prática pelo espírito português, e pela audácia dos nossos marinheiros. Culminando em Alcácer Quibir e em D. Sebastião…
O autor, no desenvolvimento do seu raciocínio sobre a Alma Pátria, encaminha-nos para as suas noções de indivíduo e de pátria, de vida animal e vida superior, de perfeição e imperfeição, faz-nos reflectir sobre a lei suprema e as implicações da subjugação do indivíduo à pátria, ficando este também a ser pátria ascendendo em sacrifício ao espiritual. Esse sacrifício não se confinará ao colectivo de um campo de batalha. O amor familiar, o seu contributo como homem fraterno entre seus pares na comunidade e na profissão, cumprem os desígnios da lei suprema.
Tomamos o pulso a um conjunto de matérias que são abrangidas pelo poeta, com reflexões em campos como a história, filosofia, arte, paisagismo, religião, política e jurisprudência.
Pascoaes reconhece alicerces para a estrutura familiar, nas tradições do passado da humanidade, na vida municipal em obrigações comunitárias hierárquicas, nos 3 estados propostos de família rural, urbana e operária, e colhendo as virtudes dos antepassados estabelece uma analogia entre a família e a pátria, devendo constituir ela própria uma pequena pátria, ocupando um território familiar, criando assim ela também a sua própria raça. Ao Português tal culto é proposto para a manutenção da sua civilidade e disciplina.
Porém, nesse culto está implícita uma dose de religiosidade que moralmente ampara o indivíduo na sua ligação ao divino etéreo, e será o garante do cumprimento da lei suprema do sacrifício. Pascoaes até nesta vertente inova e recebe apoios, separando a velha igreja romana para criar uma nova à imagem da renascença portuguesa: a igreja Lusitana.
Surge então o cristianismo que é tradicional na concepção religiosa da família portuguesa e que como é sabido, é uma herança de longínqua proveniência desde a fundação da pátria por D. Afonso Henriques, tendo-se enraizado na nossa história pela criação de um lugar cativo da imagem de Jesus Cristo e da Sagrada família, tanto nos nossos templos e palácios, como nas nossas casas, sendo a «lareira o santuário com as imagens dos avós».
Aliás, algumas décadas depois de sair este livro, uma das páginas da nossa história mais recente o mostra, pela concepção que o estado novo tinha sobre a vida familiar e em sociedade, para os portugueses. Vida essa de princípios rurais e agrários, ligada à igreja católica, ideia com pouco arrojo, muito comedida, algo cinzenta e sem grandes apostas na inovação, pensando-se sempre na condição de neutralidade perante a guerra. Na altura, Franco, aqui ao lado, dizia exactamente isso de Salazar, e no entanto… E assim nos íamos mantendo como os meninos bem comportados da família europeia, com os mesmos brandos costumes, muito honestos aos olhos dos outros, mas pobres! Pobres em infra-estruturas e na cultura, que a felicidade ignorante fez o favor de estagnar. E os que despertavam desse estado letárgico, logo eram amordaçados… Bom, mas vamos deixar o estado novo e voltar a Pascoaes.
Encontro talvez a única discordância que me separa deste pensamento, na questão da religiosidade bucólica a braços com a ruralidade comungando com a natureza, inúmeras vezes referida, onde à qual dedica um sub-capítulo sob o título de paisagem. A visão populista nas constantes chamadas ao folclore nacional do cancioneiro popular, denota um olhar que não se vira para a modernidade, num período em que o país sofre mudanças políticas e sociais profundas com a instauração da República.
Mas mesmo assim, como compreendo Pascoaes por este resgatar o que considerava o mais representativo e glorioso do nosso passado. E como muitos outros poetas o fizeram! O passado serve sempre de fonte de inspiração para se construir um futuro, para que dentro de nós se refaça a seiva lusitana e que dela brotem a audácia e a perseverança num renovado génio português. E como já referi, o poeta, não o quis ser com esta exaltação literária devido às incursões no popular do cancioneiro e na simplicidade da vida rural de culto religioso. Ora, aqui, o poeta despe a sua pele para vestir uma outra e assim se misturar no povo, para ele próprio conhecer melhor o Portugal que no fundo apenas ele via ao ritmo dos sentimentos sangrados do seu coração.
Convirá que seja feita uma referência ao saudosismo de origem Sebastianista dorida e aventureira, que originou um movimento literário na primeira década do velho século. A revista “Águia” tornou-se no elemento nuclear e de difusão das ideias do grupo de poetas que nela escreviam, e o mentor, Pascoaes, reconhecia esse saudosismo como o motor da produção literária poética.
Mas aquilo que Portugal é, já o era em 1920 quando das primeiras publicação deste livro e até muito tempo antes. Um Portugal brando, de vil tristeza, mártir da inveja que sucedeu à cobiça, preocupado em manter a grandiosidade perdida, que não se afastou nem se aproximou daquilo que poderíamos ser e que é sublimado por este livro. São estes os defeitos que reunidos num outro sub-capítulo, o autor aponta como aqueles da Alma Pátria, rematando com o vício que actualmente é mais agitado como bandeira: a Imitação. A imitação de que os outros (aparentemente) farão de bom…
«…quanto a estas qualidades, são as próprias da raça que devemos cultivar. Não há maior erro que a pretendida substituição das qualidades próprias por aquelas que admiramos nos outros povos.».
Este Portugal que mostra a sua feição real nos dias que correram e que correm, não conheceu este livro, ignorou a nossa alma pátria porque não se confrontou com ela em todas as acções diárias materiais e espirituais, e cujas virtudes nos poderiam ter catapultado para o lugar onde Viriato, D. Afonso Henriques, Nuno Álvares, Vasco da Gama, Camões ou Fernando Pessoa se encontram.
Viremos então os olhos para o futuro pois como já vimos a Alma pátria existe em matéria e alma, e está alicerçada. Acreditemos pois, livres, saudosos e independentes.
(é muito bonito falar, não é?...)

1 comentário:

jorge pedro ferreira disse...

é mais que saudável que te sintas separado deste pensamento mas tens que o ver pelos olhos do início do sec.XIX.

e doutrina à parte o pascoes é ou não uma maravilha. aquela de os descobrimento serm obra portuguesa como provas Os Lusíadas é de se lhe tirar o chapéu!