03/05/07

posts que interessam

Ele há coisas...
Este post poderia ter outro título como: Depois de Mariano Gago, Jorge Coelho, etc..., lá apareceu mais um a usar a peneira para tapar o sol.

António José Saraiva, assina este interessante artigo no blog do jornal Sol, que vale sim, pela descrição histórica do que foram e por onde passaram as nossas actuais elites. Ou seja, os 2 primeiros terços do texto, porque as conclusões depois de se escudarem em antigos hábitos e prácticas que não se coadunam com a actualidade, exalam um forte e profundo odor a eufemismos. A ler, portanto, a seguir:
Os engenheiros técnicos
No tempo em que eu fiz a escola primária, os miúdos dividiam-se em duas categorias: os que, uma vez concluída a 4.ª classe, deixavam de estudar para irem trabalhar e ajudar os pais nas despesas da casa, e os que continuavam os estudos. Estes, por sua vez, ainda se dividiam em dois grupos: os que iam para o liceu e os que iam para a escola técnica. Os que iam para o liceu eram os filhos dos ‘ricos’, os da escola técnica eram os ‘remediados’. Claro que os ‘ricos’ quase nunca eram ricos, pertenciam à classe média ou mesmo à pequena burguesia, e os ‘remediados’ muitas vezes eram pobres cujas famílias faziam das tripas coração para os filhos poderem estudar.
Os que seguiam o liceu cumpriam sete anos – e depois tinham pela frente a faculdade. Os que iam para as escolas técnicas cumpriam cinco – e daí transitavam para os institutos industriais ou comerciais.E é aqui que começa verdadeiramente a nossa história.

Ao terminarem os cursos nos institutos industriais ou comerciais, os formandos ficavam com o título de ‘agentes técnicos’, ‘regentes agrícolas’ ou ‘contabilistas’.Devo dizer que, com honrosas excepções, estas pessoas viviam cheias de complexos. Porque eram tratadas por ‘senhores engenheiros’ (os agentes técnicos e os regentes agrícolas) ou por ‘senhores doutores’ (os contabilistas), mas sabiam que não eram nem engenheiros nem doutores. No máximo, eram ‘engenheiros de segunda’ ou ‘doutores de segunda’. Mas também, convenhamos, não dava jeito nenhum tratá-los por «senhor agente técnico» ou «senhor regente agrícola». Além de que, nestas designações académicas, estava presente um estigma de classe. De casta. Os agentes técnicos, os regentes agrícolas e os contabilistas eram em geral oriundos de famílias cujos pais, como vimos, não tinham posses para mandarem os filhos para o liceu. Eram os ‘filhos dos remediados’. E essa ideia de casta magoava, representava um ferrete para toda a vida.


Assim, a partir de certa altura – no tempo de Marcello Caetano –, quando um sopro de democratização atravessou o país, os agentes técnicos e os regentes agrícolas passaram a ser oficialmente designados por ‘engenheiros técnicos’. E, deste modo, a divisão entre verdadeiros e falsos engenheiros atenuou-se. Eram todos engenheiros – embora uns tivessem no título um pequeno acrescento, na maior parte das vezes omitido, que era a palavra ‘técnico’.
Conheci relativamente bem esta realidade, porque a minha mãe foi durante muitos anos professora de um desses estabelecimentos onde se tiravam cursos médios – o Instituto Comercial de Lisboa, à Rua das Chagas –, onde foi professora de alguns jovens que viriam a tornar-se célebres e a ter um importante papel no futuro do país: Cavaco Silva, Ernâni Lopes, Eduardo Catroga, Mário Castrim (aliás, Manuel Nunes da Fonseca).
Esse mal-estar que atingia os engenheiros ou os economistas ‘de segunda’, mesmo depois da emenda legal que lhes alterou o nome, levava muitos deles a inscreverem-se posteriormente na universidade para se tornarem ‘verdadeiros engenheiros’ ou ‘verdadeiros economistas’.Foram os casos, por exemplo, de Cavaco, Ernâni e Catroga – que, depois de serem alunos da minha mãe, pediram a equivalência a Económicas e fizeram no Quelhas as cadeiras que lhes faltavam para serem mesmo ‘senhores doutores’.

Foi mais ou menos esta a história de José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, que tanta tinta tem feito correr e afinal se resume a muito pouco.Fez o liceu na Covilhã, como os meninos ‘ricos’. Mas o encerramento, a seguir ao 25 de Abril, da Faculdade de Engenharia do Porto, onde o pai o tinha matriculado, levou-o a inscrever-se num curso médio que lhe dava apenas direito ao título de ‘engenheiro técnico’. Assim, mais tarde, como milhares de outros engenheiros técnicos, Sócrates sentiu necessidade de ter um curso superior, de usar o título de engenheiro sem complexos por não o ser verdadeiramente – e matriculou-se numa universidade que, por não ter grande exigência, não o obrigava a muito trabalho: a Universidade Independente.Deram-lhe as equivalências que entenderam dar (justas ou injustas), fizeram-lhe os exames que entenderam fazer (concedendo-lhe mais ou menos facilidades) – e Sócrates lá ficou engenheiro sem a palavra ‘técnico’ à frente.

À semelhança de muitos outros agentes técnicos, regentes agrícolas e contabilistas por esse país fora, José Sócrates quis limpar essa ‘nódoa’ do seu passado, esse ferrete que significava para quase todos uma marca de classe.Isso constituirá um crime?E que necessidade há de remexer na ferida, de lhe atirar à cara que antes não era bem engenheiro e hoje o é por favor?No fundo, aqueles que atacam Sócrates fazem-no ou por uma mal disfarçada ‘superioridade de classe’ – como quem diz: tu não és um dos nossos – ou por um certo sentimento de inveja – por não se terem formado e não quererem que Sócrates passe por ser mais do que eles.

A mim, a licenciatura do primeiro-ministro não faz nenhuma confusão. Admito que tenha havido aqui ou ali uma certa facilidade. Mas isso terá importância para encher páginas e páginas de jornais ditos ‘sérios’? E quantos alunos se formaram em universidades privadas e públicas sem terem o mínimo de capacidades para serem doutores ou engenheiros?Compreende-se, por todo o envolvimento social, que Sócrates tenha querido ter um canudo. Mas isso não o faz melhor nem pior primeiro-ministro. E quantos têm um canudo que ninguém contesta e não serviriam sequer para dactilógrafos da presidência do Conselho de Ministros?

Publicação: Saturday, April 28, 2007 10:00 AM por JAS

8 comentários:

Tales da Gardunha disse...

Falsear as habilitações numa empresa deve ser apurado ou deve ser secundarizado?

V.F. disse...

A verdade, acima de tudo. Quem, numa empresa - coisa que não é brincadeira nenhuma - mente ou omite uma vez, irá fazê-lo sempre

Iceman disse...

Boas Victor.

Interessante post este.

Como sabes, trabalhei no IST durante 11 anos e como é também do teu conhecimento, o IST é considerada, ou era, a melhor faculdade de engenharia do país, pelo menos era aquele com mais status.

Assim conheci e conheço vários engenheiros e engenheiras, sendo alguns amigos que me ficaram.

Vivendo grande parte dos meus dias naquele meio, facilmente me considerei um deles, membro daquel clã. E isso vai de encontro ao que referes, e tu deves sabê-lo tão bem como eu, os engenheiros gostam de se sentir especiais, repara, não gostam que os tratem por doutores (pois doutores são os restantes), mas sim por engenheiros.

Logo, para mim, é natural, embora haja também aí aproveitamento político, que a classe agora queira resolver esta questão de o Sócrates ser ou não ser engenheiro, sobretudo porque facilitar uma licenciatura tida como difícil, significa que a mesma pode ser comprada.

Não se me estou a fazer entender, apenas vejo este imbróglio por outro prisma.

Para mim não importa quantas cadeiras o homem fez na independente. O que me incomoda, de facto, é o facilitismo. E digo isso porque tenho um amigo que saíu do Técnico por achar o curso difícil matriculando-se de seguida na Idependente. Tirou o curso em 5 anos, com uma boa média e várias vezes me dizia que tinha acesso a exames antes de o fazer. Isso foi há uns 5 anos e agora é tão engenheiro como aqueles que andaram a carpir no IST.

Um abraço
Nuno

V.F. disse...

Sim, eu sei que trabalhaste no Técnico. Conviver com aquela gente também há-de ser uma excelente escola. Em Coimbra já não bem assim, pois os srs. prof´s não querem cá misturas. É coisa muito brejeira.
Contudo, sempre ouvi dizer que o IST era a melhor escola de engenharia do país. Isso é unânime.

Eu estou inscrito na ordem, e não me sinto nem mais, nem menos técnico por causa disso. Os títulos para mim são treta. O que interessa é a competência técnica que foi conferida em conjunto com a apetência, a honestidade e a inteligência. Isso é que faz a diferença e a distinção.

Ora, conseguir o curso a este custo, constitui uma forma hábil e pouco honesta, para quem o faz e para quem o dá. E isso é de uma injustiça enorme para quem teve e tem um percurso académico digno. (Cada vez que estudava para uma frequência sentia os cabelos tornarem-se brancos).
E depois, não venham cá com argumentos de que não vão exercer à posteriori (que não é bem assim, pois o PM ainda mantém o lugar na Câmara da Covilhã no quadro técnico...). O problema é de carácter e de pretensão provinciana, pois algo diminuía Sócrates por ser apenas Engenheiro Técnico, que é uma coisa ao nível do "titularium" que se encontra entre o nada e o engenheiro (com todo o repeito que tenho pelos meus colegas).
Enfim. E chegar com um certificado de habilitações com 16 valores é bem diferente que um de 12 valores, mesmo que de uma escola pública?!
É nesse aspecto que vale a pena insistir e tocar a ferida com o dedo, para que isto não passe impune, na defesa do bom ensino de dos profissionais que daí advêem.

É sobre isso que Sócrates não quer falar. Isso e as trapalhadas administrativas da Independente. Mas, como PM, devia ter a dignidade e humildade de falar seriamente sobre a facilidade com que muitos cursos se tiram em Portugal. Disso já não se livra, dessa falta de rigor e dessa falta de humildade. A ver se voltou a falar nas qualificações?...

Adiante.

Bia disse...

Olá Victor,

vim aqui só para deixar 1 beijinho e fico contente por saber q continua a escrever :-)

V.F. disse...

Olá Sílvia! Obrigado :)
Já vi que também tens um blog!
Vou espreitar,
Beijinhos!

Cazento disse...

Viva, Víctor!

Muito me ri com este posts. É ao mesmo tempo sério mas como quem não quer a coisa lá nos atira com umas verdades inquestionáveis. Eu também conheci um sr. "eng.º" que quando passava no corredor ficava um murmúrio no ar dos coscuvilheiros sempre a martelarem que ele não era eng.º era regente agrícola. E só depois do 25 de Abril é que lhe passaram a chamar mesmo de sr. eng.º porque já inha direito a isso. E também havia o caso dos "bacharéis" ou "bacharelados" (não sei qual é o termo corecto), os quais (as quais, pois na maioria eram mulheres) eram criticadas à socapa porque se faziam passar por sr.ªs dr.ªs quando afinal...

Era um fartote de rir com essas cenas triviais.

Mas acho que este post é bastante realista, agora o que é difícil de aceitar é que alguém se faça passar por aquilo que, efectivamente, não é.

Um abraço,

João

V.F. disse...

Viva!
Daqui, desta crónica, retiro essencialmente a história, o seu valor como testemunho - credível possivelmente - da forma como eram feitas as formações dos nossos actuais "homens".
Depois pode-se dar a importância que se quiser ao aspecto lúdico da coisa, fazendo recordar esses episódios que o João refere, extremamente caricatos e carregados de intriga à portuguesa..., dirigida a quem queria ter o passo maior que a perna, com certeza. A tal coisa do título, só mesmo aqui.

Pois é, é difícil aceitar isso; nesse aspecto ninguém perdoa.

Um abraço,

Victor