09/09/07

D. Afonso Henriques, José Mattoso

Ora aí está a biografia de D. Afonso Henriques, escrita e organizada pelo historiador José Mattoso, que vem logo no seu início abençoar a tese de Almeida Fernandes mencionada aqui, onde este teoriza que o primeiro Rei nascera em Viseu, a Agosto de 1109, e não em Guimarães como é admitido e aceite pela generalidade das pessoas.
De entre as hipóteses possíveis acerca do local de nascimento de D. Afonso, a que foi colocada por Almeida Fernandes é a mais provável e a mais verosímel, escreveu José Mattoso. [Editor: Temas e Debates]

Acerca da vida do monarca, muitos detalhes desconhecidos da maioria do público e presentes nesta biografia do prof. Mattoso, encontram-se aqui referenciados.

Na editora Guerra e Paz, saiu em meados de 2006, Fama e Segredo na História de Portugal - um livro com histórias da história de Portugal de Agustina Bessa-Luís, havendo lugar a uma pequena história sobre o nosso primeiro rei onde são abordadas deliciosos factos e episódios. [Em comentário transcrevo a parte sobre D. Afonso Henriques, pré-publicada no Abrupto.blospot.com, em Abril de 2006]

1 comentário:

V.F. disse...

Retirado do Abrupto.blogspot.com:

Há quem afirme que Afonso Henriques era um bastardo de Egas Moniz, seu pai verdadeiro. As deduções em volta deste boato são bastante significativas, pondo de parte favores dos santos e dos cronistas. Já do conde D. Henrique, que foi pai presumido de D. Afonso, a naturalidade é controversa. Uns dizem-no neto do conde Roberto de Borgonha; outros fazem-no proceder do rei da Hungria que seria o pai do dito D. Henrique, vindo a Espanha decerto em busca de glória e de fortuna. Em 1080 já estavam em Espanha três príncipes franceses, ao que parece na escolta da rainha D. Mafalda, mulher do rei D. Afonso, o sexto. Quando o conde D. Henrique entrou em Espanha o Governo de Portugal estava repartido por vários senhores, ditos cônsules; e as terras entre Douro e Mondego, mais aproximadas a mouros e suas companhias, eram governadas por um capitão chamado Sisnando. Foi do próprio D. Fernando de Castela que recebeu o senhorio de Coimbra e de todos os castelos e cidades em volta: Lamego até ao mar, o Rio Douro até aos limites na posse dos cristãos. O rei D. Afonso, passando a reinar por morte de D. Fernando, veio a confirmar todos os poderes de Sisnando, mais militar do que religioso, embora fosse suposto bispo de Iria. Era muito estimado dos mouros em Sevilha, onde vivia antes da conquista de Coimbra. No foral que D. Afonso, o sexto, deu a Coimbra, louva o capitão Sisnando como povoador e engrandecedor da cidade. Mercê da sua boa aliança com os mouros e passado entendimento sevilhano, Sisnando fez um governo pacífico e justo. No ano de 1080 mandou fazer a igreja de S. Martinho e seria decerto o mais importante dos senhores do estado de Coimbra. Uma profusão de casas aparentadas entre si, com títulos e grandeza de fundadores de conventos e igrejas, estendia-se pelas terras de Braga e Coimbra e constituía o quadro senhorial que o conde D. Henrique encontrou quando da sua entrada em Portugal. Em 13 de Fevereiro de 1095 o conde estava já casado com D. Teresa, filha do Rei D. Afonso. Tudo o que se pode averiguar dos factos históricos desses tempos é-nos oferecido por datas de escrituras, doações, batalhas e casamentos. O que importa realçar são as contradições que vêm a lume na multiplicidade dos papéis escritos. Confrontando datas, pode-se concluir que antes do fim do ano de 1094 o Conde D. Henrique não tinha senhorio em Portugal nem era casado.
O primeiro obstáculo ao senhorio de Portugal pelo casal D. Henrique e D. Teresa (Portugal foi-lhe dado em dote, antes disso na posse do conde D. Raimundo) foi levantado pela data de nascimento de D. Afonso Henriques, apontada para o ano de 1106 e não de 1094. O conde D. Henrique, seu pai, seria então homem maduro e, segundo as leis da longevidade, entrado em decrepitude, pelo que a teoria de o príncipe não ser seu filho tomou alento na continuidade da História.
Em primeiro lugar, facto que não se pode desdizer nem ocultar, D. Afonso nasceu estropiado. Era uma criança formosa e bem constituída, mas sofria duma anomalia, hoje operável, mas que no tempo era absolutamente incurável. Tinha as pernas coladas a partir dos joelhos, o que o tornava incapaz para o exercício das armas e montar a cavalo. Chegado aos cinco anos, esgotados decerto todos os tratamentos, aquele que reivindicara o lugar do seu aio, Egas Moniz, teve como solução encomendar a criança à protecção do Céu. No que foi atendido de maneira miraculosa. O menino apareceu escorreito e disposto a uma vida de agitação e conquista. A criança raquítica, embora bela e prendada de muitas graças, deu lugar a um guerreiro como não houve outro na nossa História. Dá para pensar que Egas Moniz o fez substituir por um dos seus próprios filhos ou filho dalgum rico-homem de pendão e caldeira, como se dizia.
Egas Moniz, de apelido o Gasto, casou com D. Toda Alboazar, de nome algo suspeito de arábico. A alcunha de Gasto seria antes Gasco, porque este Egas Moniz era filho de Moninha Viegas, capitão da Gasconha. Na Foz do Douro, digamos que nos penhascos do Porto, teve este grandes batalhas com os mouros. Egas Moniz, o Gasco, foi bisavô de Egas Moniz, o redentor do triste príncipe ao seu cuidado.
Esteve D. Teresa como rainha de Portugal dezasseis anos, depois da morte do conde D. Henrique. Ela sim, foi soberana, por contratos com sua irmã e doações de terras que afiançavam a paz. A D. Henrique nunca se reconheceu o título de rei, mas sua mulher, tornada à solteiria e com idade para se ver coroada e protegida de novos amores, deu em ser majestade e não súbdita até ao ano de 1128. Data em que D. Afonso Henriques entra a fazer-lhe guerra, teria ele vinte e dois anos. E, se nascido em 1106, trinta e quatro anos, o que parece pouco de acreditar. D. Teresa parece apaixonada e decidida a casar com o conde D. Fernando de Trastâmara, o que precipita a discórdia entre mãe e filho. É uma guerra ao estilo troiano, arrebatada e sensual. Salazar perguntava o que se há-de fazer dum país que começou com um filho a pôr a ferros a própria mãe. Candura extrema, que é a de acreditar que as ambições humanas não devoram o horror, para o fazer parecer santo. Enfim, o Trastâmara era uma realidade que puxava para Castela; e quem não há muito dela ganhara a liberdade, opunha-se a voltar aos preitos de vassalagem. Fosse ou não filho de D. Teresa, D. Afonso, no testamento de Múnio Viegas, pai de Egas Moniz (outro, diverso do aio), consta que no ano de 1128 já D. Afonso Henriques era senhor de Portugal. Até ao princípio desse mesmo ano parecia haver harmonia, mas as coisas precipitaram-se com a ideia do casamento; casamento nunca constado mas de certo modo provado, por exemplo, numa escritura de 1121 em que a presença de ambos é declarada. Mas causas mais graves há, um conluio entre os dois, como no texto de concórdia entre o bispo de Coimbra e o do Porto, o célebre D. Hugo, celebrada a cinco de Abril de 1122. Ambos assinam no livro da Sé de Coimbra, seguindo-se a rubrica dos senhores, “in praesentia Regina Tarasiae et Comitis Donni Fernandi, et Baronum Portugallensium”. Isto basta para testemunhar o casamento.
Quando D. Afonso Henriques desfere o golpe da sua ira é possivelmente quando Fernando de Trastâmara se arroga direito sobre o reino e a sucessão. Em 1131 há já uma filha; “Ego Comes Ferdinandus Paes filius Comitis Petri una cum filia mea nata de Regina D. Tereixa conf.”.
Mas a ambiguidade da situação persiste, e são várias as provas e contraprovas dessa união. Para que a cólera de D. Afonso Henriques se levante tão devastadora, chegando a perseguir a mãe como uma ré de alta traição, é preciso que alguma coisa ameace o príncipe e ponha em causa o seu reinado.
Há portanto uma filha do segundo casamento. Que projectos se desenrolam na falsa harmonia do Paço? Se D. Afonso Henriques não é de facto o filho de D. Teresa, se há testemunhas duma cabala que vai até ao crime, é preciso tomar medidas, e medidas profundamente arriscadas, impetuosas e até brutais. Sabemos que D. Afonso Henriques é um líder e que um líder não é um cavalheiro. E D. Teresa também não é muito escrupulosa em coisas de lealdade, porque os tempos não aconselhavam o coração senão para servir a vontade. A vontade era reinar. O efeito duma grandeza que cria a subordinação e a lisonja é fatal para a sensibilidade. Além do mais, Dona Teresa, como bastarda dum soberano, devia conjugar a avidez do poder absoluto com o direito de corrigir a genealogia. Nada se sabe da sua fisionomia, mas há a cópia duma litografia de Guglielmi, no livro de F. Fonseca Benevides Rainhas de Portugal, Lisboa 1878, que a mostra de bom parecer, possivelmente alta, de olhos negros e sobrancelhas marcadas e longas, como era próprio dos povos mediterrânicos. Bela, morena e voluntariosa, do tipo que se diria mouro; o que sugere talvez um cruzamento com uma princesa dos arraiais dum desses aliados dos cristãos com quem estes tinham episodicamente contratos de campanhas. Mas isso, o senhor Guglielmi é que sabe e fazemos fé nele.
Há prova de que D. Teresa, depois da morte do marido que a ultrapassava em muito na idade, foi senhora de Portugal até ao ano de 1127. Depois disso tudo mudou. Como filha do rei de Leão, ela tinha apoio e respeito. D. Afonso Henriques demorava a pedir-lhe contas da sua herança porque a tinha por segura e não lhe convinha abrir a cortina sobre o caso da sua deformidade de nascença e a maneira como foi curada. O povo podia confundir-se com o milagre, mas os homens de conselho, entre os quais bispos e abades, podiam mostrar desengano quanto à santidade do acontecimento de Carcare, onde se dera o prodígio. Alguma coisa sucedeu para que as relações entre mãe e filho fossem quebradas.
Sabemos que tinha nascido uma criança, uma menina, do casamento de D. Teresa com o conde de Trastâmara. Essa sim, era do seu sangue e da sua carne. É de crer que, com o andar dos anos, dezasseis de reinado absoluto, D. Teresa e o marido se propusessem dar à filha o direito de sucessão. O negócio de família decorrera no maior segredo e o conde D. Fernando tinha por seu lado o Fernandes de Trava, seu pai e praticamente toda a nobreza da Galiza. Mas Portugal tinha em sua defesa toda uma ala de capitães e gente de guerra que já se manifestara com êxito e valor quando da vinda do rei mouro Brasimi disposto a chegar às portas de Coimbra e conquistar a cidade. Percebe-se que a contínua acometida dos mouros trouxesse em cuidado Egas Moniz e o afastasse da sua quinta de Resende onde decorria a vida do infante miraculado. Alexandre Herculano põe-nos de sobreaviso sobre “os fundadores de antigas monarquias cuja vida foi desde o berço povoada de maravilhas e milagres pela tradição popular”. Mas temos que considerar a intenção dos poderes a quem convinha instaurar uma tradição, para assim melhor iludir e governar. Também é Alexandre Herculano quem afirma: “o amor cego da rainha por um homem alheio à província”, e aqui demonstra mais índole de romancista do que prudência de historiador. Não se pode assegurar a inclinação de D. Teresa pelo conde Fernão Peres, quando o que estava em jogo era a independência de Portugal e a sua soberania absoluta como rainha. Com a morte de D. Urraca sua irmã, crescem as suas ambições quanto ao senhorio do Condado Portucalense que nada mais era até então senão um campo de recontros entre fronteiros e mouros. O sentimento da nacionalidade emergia duma revolta de sete séculos, e não é sem motivo que D. Afonso Henriques foi chamado o Viriato cristão. Em D. Teresa esse sentimento não deixou de estar presente num coração onde batia o amor da mulher, mas também o desejo de se afirmar como soberana. O certo é que, depois da morte de D. Teresa, expulsa pelo filho, senão que aprisionada, o conde D. Fernando Trastâmara (ou Peres, como diz Herculano) numa exaração de doação de terras que ele faz à sé de Coimbra, tem para com sua mulher, ou amante, palavras de respeito e de emoção profunda. D. Teresa morre no primeiro de Novembro de 1130. Dia de Finados, já por si carregado de solenidade. Não tendo um reino, tem uma coroa de flores no reino dos morto.
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Nos princípios de 1127, tendo D. Afonso ainda alguma boa paz com a sua mãe D. Teresa, lavrava já a conspiração contra o rei de Leão e mais directamente contra a influência do conde Fernão de Trastâmara. A corte do falecido D. Henrique era fiel ao seu herdeiro directo, pelo que a sucessão parecia assegurada. D. Afonso VII, primo de D. Afonso, decerto avisado dos conluios portugueses para proclamarem um rei próprio, invadiu Portugal, em princípio com sucesso. Pôs cerco a Guimarães e obteve, com as forças que superavam as dos portugueses, uma declaração de vassalagem da parte de D. Afonso. Egas Moniz deu de penhor a sua palavra de que se cumpriria o tratado. Afonso VII levantou o cerco e retirou-se, fiado na honra de fidalgo que era Egas Moniz. Mas as coisas desandaram em franca hostilidade entre mãe e filho e, no ano seguinte, rebentava a revolução que teve desfecho na batalha de S. Mamede. É de supor que a vinda de Afonso VII com intuitos de confirmar os seus direitos sobre o condado portucalense, se devesse a uma queixa de sua tia D. Teresa, a qual não estaria em Guimarães, mas refugiada na corte de Leão. Em Guimarães decorriam as conspirações, talvez não completamente votadas pelo fiel Egas Moniz porque receoso de ver debatida a legitimidade do seu pupilo infante. Devia ser esta carta com que jogava D. Teresa. Egas Moniz apressou-se a selar um pacto com Afonso VII, não por lealdade mas por prudência.
Todavia, D. Afonso Henriques, na verdura da mocidade e irado pela demora da sua nomeação como senhor do seu território, declarou guerra a D. Teresa, pouco interessado se o fazia ou não segundo as regras da cavalaria. D. Teresa devia estar fora das terras de Portugal e ele ocupava o castelo de Guimarães com os seus fiéis. A oportunidade era preciosa e ele lançou-se para S. Mamede onde teve, primeiro, fraco sucesso. Foi ao ver que ele saía derrotado que Egas Moniz, mandando ao ar o seu juramento, o foi ajudar, obtendo a vitória.
Não cabe, neste interregno entre a vinda de Afonso VII e a batalha de S. Mamede, pouco mais do que um recontro de forças rivais, o episódio de Egas Moniz com a corda ao pescoço e a família descalça, para resgatar a sua palavra perante Afonso VII. Decerto isto pertence à lenda que se formou logo a partir do milagre de Cárquere. A verdade é que, aio ou pai verdadeiro de D. Afonso Henriques, ele o tinha criado para rei nos lugares de Resende, junto com aqueles que seriam os validos mais próximos e os guerreiros mais esforçados na nova corte portuguesa. Uma nota arrepiante fica no rodapé da História. Que foi feito da criança aleijada que Egas Moniz levou nos braços, arrebatando-o à sua ama D. Ausenda? Ama de leite, dizem os papéis, o que parece contraditório com os costumes de criação dum príncipe. Lembramos o episódio da dama de França, a quem a aia dum filho seu deu de mamar porque ela tinha fome e a mãe estava ausente. A mãe fez com que o menino vomitasse o leite, porque, não sendo parte do sangue nobre, podia para sempre infectar o infante de vícios plebeus.
É de crer que a tal ama de leite de D. Afonso fosse Ausenda Dias, mulher de Gosendo Alves a quem D. Teresa, em 1116, fez a doação da vila de Góis. Ela estaria na posse de segredos que a História não pode remover dos seus escombros. Tendo nascido D. Afonso por volta de 1110, é possível que a doação registada em nome de Ausenda Dias e seu marido Gosendo Alves tivesse o intuito de pagar serviços prestados, entre os quais a criação da criança misteriosa que Egas Moniz levou do castelo de Guimarães poucos dias depois de nascer.
É altura de citar Alexandre Herculano na sua melhor interpretação de romancista: “Há muitas vezes na História, ao lado dos factos públicos, outros sucedidos nas trevas, os quais, frequentemente, são a causa verdadeira daqueles, e que os explicariam se fossem revelados”.