15/08/06

A poeira que cai sobre a terra - Francisco José Viegas

Morrer no verão, no norte do país.

Li neste fim de semana, refastelado numa praia fluvial, este conto, editado pela revista visão. Mais uma vez seguimos os passos do inspector portuense Jaime Ramos, o mesmo de “Longe de Manaus” galardoado com o prémio da A.P.E.

O inspector inicia uma investigação de um aparente crime ocorrido num pinhal no planalto transmontano, em pleno verão. O pinhal foi completamente queimado por um incêndio e o corpo de um homem de meia-idade jazia no chão coberto de cinzas. Daí arranca uma pesquisa policial, envolvendo a ex-mulher, o seu psicanalista, o pai do morto e a médica legista.

O pequeno conto possui os ingredientes para um livrinho de Agosto: o calor, o verão, os incêndios, as memórias íntimas que percorremos nestes dias ociosos e
breves viagens a cidades do norte.

Ao longo das investigações, nos diálogos com o interior, a introspecção de Jaime Ramos, muito provavelmente o alter-ego de Viegas, conduz-nos à inevitável solidão que caracteriza os policiais, àqueles nostálgicos momentos da vida de um homem de 45 anos, que nunca quis conhecer o “perigo” do amor; leva-nos aos resquícios de uma guerra ultramarina mal assimilada – como todas – e, representa-nos o retrato de vidas muito vividas, cosmopolitas, vidas gastas à espera da recta final, semblantes viciados com tiques e hábitos à flor da pele: um cigarro pela manhã acompanhado de uma bica.

Mas, sobretudo, o que me cativou no conto foi o relato da perspectiva de Jaime Ramos acerca dos personagens que ia investigando. Uma perspectiva fria, aparentemente despida de emoções e realista acima de tudo, mesmo inquietada por recordações com uma nostalgia que o trespassavam, quando por exemplo olhava para o álbum de fotografias dos suspeitos, quando lhes visitava a casa, tacteando cómodas, frigoríficos e despensas, farejando sinais.
Entretanto, Jaime Ramos vai debitando as suas verdades. Verdades fruto das incisivas observações dos personagens, do seu olho clínico, da experiência e sabedoria de anos de ofício que lhe permitiram conhecer muito e de muita espécie. Verdades retiradas de um catálogo íntimo.

Sobressaem também outros aspectos, a meu ver, menos positivos, como o de colocar em paralelo à do escritor, a faceta de gastrónomo que Viegas possui, dando lugar a alguns trechos escritos que são autênticas receitas culinárias.
De notar ainda, um pequeno apontamento irónico na pág. 71, onde é feita uma menção menos honrosa ao arquitecto que concebeu o novo arranjo paisagístico da Av. dos Aliados, no Porto:
[…] As redacções dos jornais ainda estavam vazias. Se caísse uma bomba sobre a Torre dos Clérigos, não haveria ninguém para receber a boa notícia. E ele imaginava Siza Vieira feliz, vendo tudo arrasado, disponível para ser atapetado a granito negro.[…] Viegas não gostou do arranjo da Av. dos Aliados, nota-se. É um direito seu. Eu também não gostei, está tudo muito "asizentado". Porém, não me parece correcto utilizar a escrita enquanto escritor de contos e romances, para beliscar o desempenho profissional de outrem. O J.N. seria melhor escolha.
Extractos de uma conversa com o psicanalista, pág.87 a 89:
[…] As pessoas vão ao psicanalista porque precisam, murmurou Jaime Ramos. Ele riu, do outro lado do tapete: Vão ao psicanalista porque é mais caro, inspector. […] As coisas têm o seu valor, um valor de mercado. A nossa retribuição depende do preço a pagar pelo serviço, do preço estabelecido. A fé é isso mesmo, também, e é tanto mais valiosa quanto mais exige e mais se paga. Mas as igrejas estão em saldo, à procura de clientes, ao contrário de nós, os analistas. […] Ela podia falar com uma amiga, com o marido, com um desconhecido. Mas são valores baixos no mercado, o da amizade, o do casamento, o dos desconhecidos inclusive, porque conhecemos cada vez mais gente. E o seu mercado vai bem? Não me queixo. Há novos traumas, desvios de comportamento, novos medos […] Um mundo promissor. […] As pessoas saudáveis são um perigo para nós. Aliás, nós próprios criámos a ideia de que não há pessoas saudáveis, realmente saudáveis.

Nota final: recomendado, especialmente para quem gostou de "Lourenço Marques".

3 comentários:

Cazento disse...

Viva, Víctor!

Um conto interessante, sem dúvida. E para ler descansadinho numa praia fluvial não há melhor.

Vejo com alguma frequência o programa sobre literatura que Francisco Viegas mantém na TV, e é apenas essa a única referência que tenho dele. Bom, mas agora através deste seu excelente post fiquei a conhecer outras das facetas desta personalidade televisiva.

Agora realmente tem a sua piada ele não gostar da obra que Siza fez no local citado, e então coloca o personagem do seu conto a dizer isso, porque, provavelmente, ele próprio não assume essa crítica na vida real.

Enfim, isto há com cada um, Lol!!

Um abraço,

João

V.F. disse...

A personagem fictícia é o seu alter-ego. E fica tudo dito.
Além disso, já vi o FJV referir-se várias vezes à eventual decapitação arbórea da envolvente do Hotel Vidago, por parte das "arquitecturas", lá para cima em Chaves, localidade essa referida no conto como uma das memórias do morto, tendo ele vivido em Chaves (tal como o FJV).
Um abraço,
Victor

V.F. disse...

revendo o que escrevi, penso que ficou patente que a personagem fictícia a que me referi, é o inspector Jaime Ramos, o dito "outro-ele" de FJV.