18/08/06

Marcello Caetano - delfim aos 62 anos

Fez ontem 100 anos do nascimento de Marcello Caetano.
Vi, li e ouvi muita coisa. Algumas delas ainda cravejadas da repulsa ao regime autoritário e ditaturial, que herdou de Salazar.
Contam-se hoje, 39 anos desde que Salazar foi afastado do poder, emergido, na altura, tardiamente o professor de direito, vítima também da política do regime, que apesar de tudo, estoicamente defendia. Então, com 62 anos, não demorou muito a perceber que o fim do regime estava próximo, mesmo apregoando a "evolução na continuidade" para agradar aos "ultras" e à oposição em simultâneo. Marcello, dividido entre a ala defensora do regime e a ala reformista e liberal, foi dando conta que já não tinha soluções para concretizar "pequenas" reformas que, a levar a cabo, deveriam ter sido iniciadas há pelos menos uma década.
Foi derrubado por uma "acanhada" revolução. Sim, acanhada porque começou num movimento conduzido por oficiais intermédios, sem o apoio visível das grandes patentes, ou seja, sem grande autoridade e meios que assegurassem melhor planeamento e melhor difusão da informação.

O amadorismo do movimento e o seu resultado foram espantosos, e arrepiantes também. Quando me recordo da imagem da coluna de blindados, que vinha de Santarém, parar ao stop vermelho na entrada de Lisboa - Capitães de Abril, Maria de Medeiros -, ou a saída nocturna e extemporânea de Marcello, de sua casa em Alvalade para o quartel do Carmo, na noite de 24 para 25, passando na baixa por patrulhas do M.F.A. que não reconheceram o seu carro - Vasco Pulido Valente, in o Público, 17/08/2006 - até à queda encabeçada por Salgueiro Maia no Carmo, quando este ameaça o presidente do conselho de ministros, dizendo que arrasava o quartel a tiros de canhão; ao qual Marcello respondeu - «Não arrasa coisa nenhuma!»

Como se pode ver, na nossa revolução de Abril, houve episódios burlescos que classificam o seu planeamento e a sua execução, que não deixam de reflectir o amadorismo com que foi realizada. Está ali um pouco de nós...

Mas quem quiser recordar Marcello, é preferível fazê-lo como o distinto professor de direito, doutorado aos 25 anos, e que fundou uma verdadeira escola na faculdade de direito de Lisboa, de onde saíram e saem, discípulos da disciplina e da teoria jurídica que Marcello edificou. A sua vocação era o ensino, como justificam as "Conversas em família" implementadas na sua curta primavera de poder, e não a política, onde aliás falhou.
Nota: constatei nestes dias, como era de esperar, a ignorância em torno de Marcello. Não que tenha sido uma grande figura, mas a ignorância em si. Há portugueses que têm somente a ideia de que esta foi uma página da história entre Salazar e o 25 de Abril. Seria didáctico que fossem repensados os programas de história. Houve brilhantes exemplos que se repercutiram nos media nesta última semana. Eles são o mote.
(Foto: Livro - As desventuras da razão - Vasco pulido Valente - Ed. Gótica/2003)

2 comentários:

Cazento disse...

Disse uma grande verdade, Víctor. A maioria de nós pensa em Marcelo apenas naquele curto período de sucessão a Salazar, depois de este se "espalhar" da cadeira abaixo, e até ao 25 de Abril.

Mas nestes últimos documentários televisivos a que tenho assitido e que têm evocado todas essas memórias das figuras do outro regime e das suas realizações, tenho-me dado conta de factos realmente muito interessantes. Por exemplo, eu não sabia que o Salazar não queria nada que o seu nome fosse dado à ponte.

Mas quanto a Marcelo, e aqui estou a falar pela minha própria memória da época, a ideia geral que se tinha é que ele era um homem consciente de que as coisas deveriam tomar um novo rumo, e por isso mesmo o seu regime foi chamado de A Primavera Marcelista, porque foi mais suave. Apanhou também ainda os últimos tempos do petróleo barato até à crise de 1973, já nos últimos suspiros do seu governo, de modo que em 1972 no pleno do seu governo notava-se algum progresso.

Penso que Marcelo confrontou-se com uma pesada e inevitável herança política, que nunca lhe deixou margem para muita coisa até ao fim do seu governo, e isso fê-lo viver amargurado para o resto da sua vida. Por isso mesmo até manifestou ainda em vida a vontade de que os seus restos mortais não viessem para Portugal após a sua morte.

Um abraço
João

V.F. disse...

Essa amargura que refere e que se abateu sobre ele nos últimos anos de vida, no Brasil, tem origem na falta de apoio e do esquecimento a que foi votado. Já nem falo do país, claro que mesmo tendo sido ele um devoto político pela causa nacional (e ultramarina), tratava-se de uma revolução, e o país expulsou-o.
O esquecimento, ao mencioná-lo, refiro-me mais concretamente aos seus discípulos, ex-alunos, ministros e secretários, que ele promoveu enquanto esteve na universidade e no poder.

Ora, o político foi-se, fracassou! No entanto sobrou o homem, o professor, exilado no Brasil e esquecido por todos os seus "apoiantes", como ele se queixara por exemplo de Adriano Moreira e outros. O maior golpe para ele talvez tenha sido esse, como seria natural com qualquer um de nós.

Essa primavera marcelista, é uma excelente designação ao período em apreço. De facto, Marcelo, que já no regime anterior criticou Salazar, e por isso foi colocado na prateleira, antevia que a melhor solução era reformar alguns sectores, nomeadamente a questão ultramarina, como refere o livro de V. Pulido Valente, Marcelo queria fazer de Angola e Moçambique, dois novos brasis, só que conhecendo essas duas colónias como elas eram na altura, seria difícil uma transição abrupta, não por uma questão racial, mas porque se tratavam de países ainda longe da industrialização. Teria por isso, de ser paulatina até à independência. Mas os Ultras, rejeitavam a ideia de independência.

Quanto ao retorno a Portugal, vivo ou morto, ele sempre manifestou repulsa. Enquanto vivo teria que o fazer por "requerimento", e ele, autoritário como era, nunca iria solicitar tal visita por essas via, a Eanes ou Soares, personagens que ele menosprezava intelectual e politicamente. Só dava créditos a Freitas - destacado catedrático do direito administrativo. E a Sá Carneiro, colocava reticências.

Mas é um período extremamente interessante, e sobre o qual muito pouca gente se debruçou, somente por se pensar que o político que o encabeçou era de "transição", e com 62 anos, encostado como foi por Salazar, pouco traria ao país. E o fim tornou-se evidente. Era uma questão de tempo.

Muito francamente, aconselho a leitura do ensaio do V. Pulido Valente, que faz um retrato em jeito biográfico de Macello - As desventuras da razão.

Um abraço
Victor