16/08/10

Aníbal - O conflito entre Roma e Cartago contados na primeira pessoa

Aníbal - Ross Leckie - ediç. Lyon (1998), 225 pág.



De regresso de uma viagem à zona de Cartagena, nada como rever o enquadramento histórico, sobretudo dos dias dourados em que os cartagineses resolveram fundar uma nova Cartago na costa mediterrânica da Hispânia.

A história é esta: no séc. 3 a.c., Roma e Cartago (actual Tunis), eram as duas maiores potências do Mediterrâneo. Amílcar Barca, pai de Aníbal, perdera a 1.ª guerra púnica e com Cartago esgotada vê-se obrigado a procurar riquezas na costa da Hispânia para pagar as indemnizações a Roma e fazer renascer a antiga Cartago e a força dos Barca.

Com a ajuda de Asdrúbal, seu genro, Amílcar conquista vastos territórios no sul hispânico, ricos em ouro, prata, estanho e pedras preciosas. Aníbal, o filho mais velho, cresce, é educado e instruído sob a orientação de perceptores num ambiente militar e hostil. Após a morte de seu pai Aníbal sucede-lhe e passa a comandar um novo exército em formação.

A sua vida pauta-se, daí em diante, por um ódio imortal a Roma, o que o leva a viver entre os seus soldados e a treiná-los, gerando um sentimento mútuo de apreciação e admiração. A astúcia guerreira leva-o a desenvolver novas armas, máquinas e estratégias militares, tornando-o no general mais temido pelos romanos.

Asdrúbal, hábil no estabelecimento de uma política de interesses na Hispânia, funda então a cidade de Cartagena que servirá mais tarde de apoio logístico e militar a Aníbal, iniciando assim, a campanha com que sempre sonhara: marchar sobre Roma levando consigo o seu exército e elefantes, atravessando os Pirinéus e os Alpes.

A história é uma narrativa autobiográfica de Aníbal contada na primeira pessoa, e retrata de uma maneira verosímil a forma de viver da época, os costumes, as trocas comerciais, as guerras sem tréguas, a barbárie cruel infringida a traidores e prisioneiros, levando-nos depois a acompanhar a 'impossível' grande viagem até ao norte de Itália, a perceber as estratégias e os métodos inovadores de combate, décadas mais tarde, eles próprios, adoptados pelas próprias tropas romanas.

A narrativa é densa e estende-se por várias décadas, desde a infância na Cartago africana até à glória triunfal sobre as hostes romanas na batalha de Canas, finalizando no último minuto da vida do grande general. Dá-nos a percepção de uma imortalidade latente do narrador, de um vigor impetuoso do guerreiro cuja aversão desmedida a Roma o leva a perder tudo. No final, sobra-nos somente a simples ideia do homem lúcido e desgastado, acima do príncipe ou do general cartaginês que teve Roma à sua mercê, e que outrora foi querido e respeitado pelo seu grande exército. Aníbal - o inimigo de Roma.

«Juro que enquanto a idade me permita […] empregarei o fogo e o ferro para romper o destino de Roma.»

1 comentário:

Anónimo disse...

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