20/09/07

O Meu Nome É Legião, António Lobo Antunes *

Sabes filho, isto de estar vivo não vai acabar bem. (Manuel da Fonseca).

Ouvi António Lobo Antunes em auto-retrato na entrevista de há um ano atrás com Carlos Vaz Marques. De vez em quando revisito o extraordinário arquivo do Pessoal e Transmissível para em silêncio escutar alguns dos meus portugueses favoritos.
Não conheci o Lobo Antunes do antigamente, polémico dizem, enquanto cronista do Público e outros. Parece-me que pela atitude, actualmente é um ser mais sereno e solitário, um homem que foi encontrando humildade no decorrer da sua obra, que fala na idade de 64 anos sobre a bondade com a mesma importância de que falava sobre a inteligência aos 16. Recorre variadas vezes, não em tom de saudade, mas em tom de respeito e admiração a lembranças e frases do pai e da mãe, sobretudo às sentenças do progenitor. Cita provérbios, histórias e poemas num tom de voz tranquilo, num discurso entrelaçado numa ou outra graça, de onde irrompe um inesperado e agradável riso, sem ironia que se evidencie. Um ser humano interessante que procura a paz com o mundo. Porém, assombrado pela idade, pelo número que combina o 6 com o 4, como um Animal Moribundo, o título de um livro de Philip Roth que há pouco leu.
Uma das tiradas que me ficou fala da humildade novamente, refere que com a idade ficamos mais humildes quando vemos a distância enorme ente aquilo que sonhámos e aquilo que conseguimos.
Não deixa por isso, mesmo anunciando que 25% dele é alemão, conforme referiu há dias no festival de Berlim, de ser por inteiro um português, triste, melancólico, com o semblante do tudo isto é fado.
* Novo romance a lançar em Outubro pela D. Quixote.

2 comentários:

Cazento disse...

Ora viva, Víctor!

Que saudades eu já tinha das visitas aqui ao seu cantinho.

Acredita se eu lhe disser que tenho lá em casa um livro do Lobo Antunes ("Eu Hei-de Amar Uma Pedra") há cerca de 1 ano, que me foi oferecido e cada vez que tento lê-lo não consigo passar da página 50?

Até me custa dizer isto, mas é a verdade. Certamente hei-de voltar a tentar lê-lo, mas não só não gosto, como acho o estilo um pouco difícil de encaixar ou perceber. Deve ser por defeito meu concerteza.

Agrada-me a nostalgia mas naquele estilo...

Um abraço,

João

V.F. disse...

Compreendo perfeitamente.
Acho que isso sucede com muitos outros nacionais, à excepção dos de meia-idade para cima, já na casa dos sessenta, tirando as naturais excepções. No estrangeiro a aceitação de Lobo Antunes é bem diferente. Percebe-se bem o porquê.
Dizem que o melhor livro dele é o manual dos inquisidores. Não sei também se algum dia o irei ler.
Prefiro as crónicas. Aí sim.
Prefiro essas e as conversas e entrevistas que vai dando.

Um abraço, cá do cantinho,

Victor.