26/10/06

Ontem não te vi em Babilónia

Numa conversa com António Lobo Antunes na Biblioteca Municipal de Oeiras sobre o seu último livro, este diz não ser um romance nem uma história. É a vida inteira entre as capas de um livro. Não tem personagens, tem apenas vozes.
Quanto ao título, é um título que poderia ser um outro, poderia ser "Ontem não te vi no Corte Inglês", etc…mas para ele o lugar Babilónia está carregado de misticismo.
Definindo para si o leitor ideal, Lobo Antunes, diz que é aquele que lê o seu livro e não o livro do autor. O leitor de Lobo Antunes é o leitor que se revê no livro, porque esse livro é dele, ele vê e (re)encontra ali, naquelas páginas, a sua vida.
Em noite de insónia, ao entrar numa sala com biblioteca, o “meu livro” e o livro do "meu leitor", é aquele que não dorme, é o que está acordado. Exemplificando, encontrando-se nessa sala Rita Ferro ou Rodrigues dos Santos, para ele, estes livros estariam a dormir.

António Lobo Antunes igual a António Lobo Antunes.
A minha ideia sobre o escritor mantém-se, e reforçou-se quando ontem na Bertrand peguei no novo livro e tentei ler as páginas iniciais. Das duas uma: ou ainda não estou preparado para o que pretende e como pretende transmitir, ou então os livros de Lobo Anunes, para sempre, continuarão a dormir - só que não na minha biblioteca. (Muito francamente, também não estou virado para ler o início da sua carreira). A única atracção que o homem/escritor em mim exerce é aquela presença enigmática emanada, que normalmente precede uma das suas geniais frases.
Fica aqui um apéritif para ruminar: «É mais sensual uma mulher vestida do que uma mulher despida. A sensualidade é o intervalo entre a luva e o começo da manga.»

5 comentários:

Patrícia Geraldes disse...

Posso-te dizer que não és o único: eu também nunca consegui ler nada completo de Lobo Antunes, apesar de também achar que quase tudo o que ele fala contém tiradas de génio, mais impressionantes, por (pelo menos parecerem) serem improvisadas. A única coisa que me afecta muito é o tom monocórdico em que ele comunica. De resto, acho que conseguiria estar horas a ouvi-lo falar. É que para mim é mais fácil compreendê-lo a falar do que a escrever. A escrita dele parece sempre que tem vários narradores, melhor, várias vozes ali metidas que nos fazem entrar num mundo que não é o nosso. Parece que de um momento para o outro ficamos esquizofrénicos. è muito complicada. Mas acho-o fantástico e de uma humildade prepotente (se é que isto poderá existir!) que me impressiona.

V.F. disse...

Olá! :) Welcome again!
Li o teu comentário com muita atenção! As ideias sobre Lobo Antunes são comuns em muitos aspectos. Essas pequenas frases, parecem sair no improviso de um homem extremamente informal, ou melhor, a formalidade e o oposto não existem para ele. Daí sempre a mesma pose no discurso – algo tímida, até – e o tom monocórdico revelador de um estado de alma em paz com o mundo e que o conduz a genuínas afirmações. Ontem na RTP, ouvi-o um pouco, e apesar da inércia (coisa que às vezes me chateia, confesso), fascinou-me aquele ser humano singelo, orgulhoso, humilde, pudoroso, mas também a atitude que deixa transparecer desencanto conformado; talvez com o mundo? Talvez com o país que por ele tanto lutou no ultramar, e até no regresso enquanto dirigente partidário no activo. Não o conheço bem, mas julgo que a apatia o envolveu quando atirou a toalha ao chão.
O estilo de escrita que referes, fruto dessas emoções, será característico destes últimos livros? A noção que eu tenho é a de uma evolução nesse sentido. Tentei por isso fazer uma leitura séria deste último, e simplesmente não consegui. Talvez o consiga no Manual dos Inquisidores ou n´Os Cús de Judas. Talvez! (humildade prepotente? interessante!)
Vou ver se há novidades no teu blog :)

Eva Lima disse...

Ultimamente gosto mais das pequenas crónicas (in Visão) de que dos livros. ´Do início de carreira li todos - Os cús de judadas, memória de elefante, O fado alexandrino - depois deixou de me divertir.
Ou fui eu que mudei, é verdade que nessa época li A montanha mágina, O crime e castigo, Tolstoi de fio a pavio...hoje nem me imagino a reler a Montanha mágica ou A guerra e paz!
Clássicos hoje, prefiro As cidades e as Serras ou O romance da raposa - a velhice coming soon...

V.F. disse...

Crónicas, só não leio todas de Vasco Pulido Valente e de Miguel Sousa Tavares porque não posso..., já agora incluo aqui também (algumas) do Pacheco Pereira, e o saudoso MEC.
Da literatura russa conheço bem Nikolai Gógol (O Nariz), e de Dostoyevski só mesmo o Crime e Castigo - grande, grande livro que vagueia pelo íntimo...
As Cidades e as Serras do Eça, adorei! O Romance da Raposa fica anotado, já não é a primeira pessoa que me fala nele :)

A Cidade e as Serras:
http://pt.livra.com/review.asp?R=706554

Anónimo disse...

Leio estes comentários e tenho vergonha do país em que nasci. Tenho pena pelo António Lobo Antunes também... Como não conseguem ler o livro até ao fim? Ele é vosso. Façam dele o que quiserem. Vai num instante e chora-se por mais. Génio.