30/05/06

No, Por Supuesto


Jorge de Sena, segundo refere Pacheco Pereira no último parágrafo de uma crónica, terá desabafado com Sophia de Mello Breyner numa das suas correspondências, o seguinte:"Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo, porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que nos salvem dele."

Embora escrito e sobretudo sentido, nas décadas de 1960 e 70, para P.P. trata-se de uma frase plena de actualidade. Concordo que seja, só não concordo é que repetidamente, enfermos desta mania de nos vergastarmos outra e outra vez, se difunda aos 4 ventos com estes achados que não nego serem verdadeiras pérolas literárias, o pessimismo como uma voz que em nós entra e nos recalca por todos os cantos.

Tenho lido algumas crónicas do género ultimamente, urdidas pelos habituais profissionais da fatalidade, e tenho notado a mesma cacetada com o mesmo tom, triste e cinzenta, desprovida de sal, e sem caricatura a colorir o juízo. Que este Portugal não interessa, é verdade, sabemo-lo há décadas, Herculano já em meados do século XIX no-lo deu conta com um aviso. Mas para quê citá-lo? Para quê reescrevê-lo sob mil e uma formas lexicais? Para não o ignorar? Como? se nos aparece pela fronte a toda a hora, ou no talão do gasóleo, ou no mail com a lista dos recém-reformados previligiados, ou até na cifra sobre o código de barras do livro das correspondências entre estes 2 ilustres ?!

Eu sei, interessa é mudar para outro Portugal que não este. Mas, por ora, o Portugal que temos é o do fado, futebol e Fátima, e nele temos de viver.E se está difícil criar um outro Portugal, principalmente por metamorfose cultural para salvação de todos nós, bem compreendo, mas apesar de não estar patente por parte de P.P. qualquer solução, comigo não contem para iberismos porque com eles nunca nos salvaremos deste Portugal.

2 comentários:

Cazento disse...

Bom dia, Víctor!

Ora então anda por aí a dar de caras com estes verdadeiros achados literários!

Não há dúvida que estamos rodeados pelo pessimismo dos ditos profetas da desgraça. Eu já tenho dito que existe uma característica muito negativa que, infelizmente, é típica dos tugas, que é a de dizeram mal de tudo e de todos, incluindo, naturalmente, de si próprios.

Isto com e sem razão, porque quando é com razão pois isso até é muito positivo, já que siginifica que se está atento ao que nos rodeia e que se tenta mudar as coisas, o que é de enaltecer, mas a questão é quando se fala mal só por falar, só por um pessimismo autenticamente doentio, que reside dentro do português, dentro de si próprio. Eu confesso que já não levo isso muito a sério e até me rio um bocado.

Quanto ao iberismo, eu também não afino por esse diapasão porque acho que os Espanhóis até nem são assim tão diferentes dos portugueses para melhor e em grande parte daquilo em que são diferentes de nós, não é realmente para melhor.

Um abraço,

João Cazento

V.F. disse...

Eu li isto no Abrupto. Quem se lembrou de o salientar em final de parágrafo, foi o J.Pacheco Pereira.
Com certeza que a correspondência encerrava outras pequenas jóias que podiam ser transcritas para a crónica para além desta, mas não, e o que eu não concordo é isso, o pensamento que está por detrás, aquele negativismo. Não digo que JPP seja um profissional da desgraça, mas que já se está a converter é uma verdade. E é pena, pois estes ilustres têm tanto aonde empregar o seu talento!

Mas há pior, eu considero o Vasco Pulido Valente um doutorado; mas já reparou: doentiamente, gosto de ler aquilo que ele costuma escrever no público, são farpas certeiras, admito, mas só nos ajuda a enfermar do mesmo mal que apontam, que raio!

Só me apetece recordar o bravo Eça, com as suas campanhas alegres, os seus textos a raiar, a crítica mordaz mas sã, as caricaturas cómicas, coloridas, não nos tiram o soluço é certo, mas também não nos atiram para o poço da solidão e do pensamento sombrio.

O Iberismo, para mim é um erro. Só nos iria atolar mais; quanto às nossas capacidades e resultados eu não me considero inderior a qualquer espanhol ou qualquer europeu. Repare: deve conhecer o Google earth com certeza, que é agora a minha "agência de viagens" (eheh...), dei uma voltinha até às costa a oriente de Ayamonte e vi ocupaçoes do solo incríveis. Vi construções recentes mesmo em cima da areia nas dunas primárias. Recentes, João! Que civismo é que se vê aqui? Nenhum. E urbanismo? Nenhum. Isto é bom para uma economia? Que exemplo é este?
Enfim, devaneios meus talvez!
Um abraço
Victor